Os gafanhotos e o dólar

José Paulo Kupfer

12 de junho de 2013 | 13h53

Atualizado às 21h05

No começo da tarde desta quarta-feira, as cotações dólar subiam e rondavam os R$ 2,15 – fecharam a R$ 2,152, sem intervenções do Banco Central.  Nesta terça-feira, as cotações chegaram a bater em R$ 2,16, mas recuaram para R$ 2,13, depois de duas intervenções do Banco Central, vendendo moeda americana. Rumores de que o governo pode ampliar as desonerações de IOF no mercado cambial – confirmados na quarta-feira – também ajudaram a desinflar as cotações.

Trepidações nas cotações do dólar, como as agora observadas, deverão prosseguir por um período de tempo ainda imprevisível. A tendência de curto prazo é de valorização do dólar, mas o que se imagina, no mercado cambial, é que o Banco Central tentará não deixará a taxa de câmbio descolar muito de R$ 2,15 por dólar. Para quem tem planos de viajar para o exterior é hora de programar a compra, aos poucos e aproveitando o vaivém das cotações, para compor uma cotação média mais favorável.

O mercado cambial entrou em regime de turbulência por uma combinação de razões – externas e internas. A principal delas é a perspectiva de melhora da economia americana, com a retomada mais firme do emprego, e, em consequência, o início da reversão da política de afrouxamento monetária, aplicada, nos últimos anos, pelo Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos.

Com a perspectiva de recuperação da economia, autoridades americanas passaram a discutir o momento de iniciar um programa de suspensão gradual da injeção regular de dólares adicionais no mercado, como forma de ampliar a liquidez financeira, mantendo juros muito baixos e, assim, estimular a economia. As primeiras consequências de um eventual enxugamento monetário seriam altas nos juros e valorização do dólar.

Embora ainda não esteja em curso, a perspectiva de que esse programa de enxugamento da liquidez extraordinária venha a ser executado está mexendo com o mercado financeiro global. O dinheiro solto no mundo – uma montanha que passa dos US$ 200 trilhões, o equivalente a mais de quatro vezes o total da produção global de bens e serviços, em um ano – começou a se movimentar, como uma nuvem de gafanhotos, saindo de várias partes do mundo, rumo ao mercado americano.

Essa movimentação coincidiu com um momento em que a economia brasileira enfrenta problemas. Além de inflação alta e crescimento baixo, o Brasil vem acumulando déficits crescentes em suas contas externas. Esse fato indica que o País necessitará de mais recursos em moeda estrangeira para cobrir esses déficits. O aumento da demanda por dólares na economia brasileira, na hora em que a oferta de dólares se reduz, pela preferência por outro mercado, ajuda a empurrar para cima cotação da moeda americana, no mercado de câmbio brasileiro.

De acordo com um levantamento do HSBC, o real brasileiro, como relata o correspondente da Agência Estado em Londres, Fernando Nakagawa, está entre as cinco moedas que mais se desvalorizaram, desde o começo de maio, num grupo que reúne as 30 mais importantes delas. Os campeões de desvalorização são emergentes de tamanho grande e mercado financeiro amplo, além de economias exportadoras de commodities.  A lista é encabeçada pelo rand sul-africano e segue com a rupia indiana e dólares de Austrália e da Nova Zelândia. Quinto colocada, a moeda brasileira já perdeu, no período, 6% de seu valor.

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