Os rankings de países e o risco de comer gato por lebre

José Paulo Kupfer

15 de dezembro de 2009 | 18h07

É provável que a atual febre de rankings comparativos entre países seja mais um dos sintomas da globalização econômica. Num mundo global, em que capitais circulam com quase completa liberdade (mas as pessoas nem tanto), faz muito sentido comparar mercados locais entre si, atendendo à demanda dos investidores. Eles querem saber onde é melhor aplicar seus recursos e os rankings, aparentemente, estão aí para facilitar essa tarefa.

Rankings, no entanto, são construções de alta complexidade, sujeitas a chuvas e trovoadas. Seu objetivo é misturar alhos com bugalhos e extrair, do suco cheio de espinhos resultante, uma lógica comum a todos.

A dificuldade maior, porém, não é harmonizar informações locais, mais ou menos consistentes, apuradas, em grande parte dos casos, em períodos diferentes. Pior é definir os conceitos orientadores da busca de informação, nos oceanos de dados existentes. Impossível, assim, levar a tarefa a algum lugar sem se apegar a esta ou aquela visão de mundo. Em resumo, o que está por trás de qualquer ranking comparativo é uma escolha ideológica.

Todo esse nariz de cera vem a propósito do artigo do economista Rogério Studart, publicado hoje na página de opinião do caderno de Economia do Estado (aqui, para assinantes). Studart, oriundo da UFRJ, é diretor executivo para América Latina, no Banco Mundial, é escreveu uma contundente contestação do famoso relatório anual “Doing Business” (DB), produzido pela International Finance Corporation (IFC), braço de financiamento de projetos do próprio Banco Mundial.

O DB goza de grande prestígio e seus relatórios anuais merecem extensa cobertura jornalística. O relatório compara países em diversos quesitos que, presumivelmente, indicam a existência ou não de ambiente estimulante à realização de negócios. Os defensores das regulações abaixo das mínimas deitam e rolam.

Para tanto, o levantamento leva em conta itens como burocracia oficial, tempo para abrir e fechar empresas, carga tributária, facilidade de contratação e demissão de empregados, facilidade de obtenção de crédito e exigências de garantias nos financiamentos etc. Como diz Studart, o DB parte da premissa de que quanto menos regulação, melhor.

O Brasil costuma aparecer mal nessa foto. No conjunto dos mais de 180 países avaliados, normalmente ocupa uma incômoda posição no terceiro quartil entre os piores. Na edição 2010, publicada em setembro deste ano, com dados colhidos entre junho de 2008 e maio de 2009, até foi rebaixado, em relação ao ranking de 2008, caindo da 127ª posição para a 129ª. Fazer negócios no Brasil, informa o ranking do DB, é dureza.

No relatório de 2010, como lembra Studart, o Brasil aparece abaixo, por exemplo, de Palau – arquipélago da Micronésia com menos 500 km2 e 20 mil habitantes, considerados exímios fabricantes de canoas – e Ruanda. Seria de estranhar, ainda mais quando se recorda que o Brasil tem atraído, em média, nos últimos cinco anos, cerca de US$ 30 bilhões por ano, em investimentos externos diretos, o que coloca o país entre os três maiores receptores de investimentos diretos entre os emergentes. Sem falar na criação, no mesmo período, de algo como 7 milhões de empregos formais. Pode ser difícil fazer negócios no Brasil, mas nem por isso eles não estão sendo feitos – e em escala crescente. 

Escreve Rogério Studart:

“Como diretor executivo no Banco Mundial e economista, sinto-me constantemente na obrigação de criticar internamente essa aberração. Porém, agora, eu nem sequer necessito fazê-lo: o próprio Grupo Independente de Investigação (IEG, em inglês), do mesmo Banco Mundial, publicou em 2008 um relatório chamando a atenção para as falhas conceituais e metodológicas desse produto. Ele está no site do “Doing Business”, no link “methodology & research” .

As críticas do IEG, apesar da linguagem diplomática, são pesadas (ver aqui o relatório de avaliação, em inglês). Escopo, transparência e qualidade das fontes de informação, de acordo com as avaliações do IEG, teriam de ser aprimorados. No caso das fontes de informação, que o relatório do IEG considera muito restritas e concentradas em advogados, o IEG aponta algo incrível: as informações para o item “taxas e impostos” provêm de uma única e gigantesca firma americana de advocacia e consultoria, com ramificações em 142 países.

 Conclui Studart:

 “A verdade é que o ranking do Doing Business é um indicador pobre do ambiente de negócios e que algumas das reformas propostas pelo DB podem até ser úteis, mas não são suficientes para melhorar o clima de investimentos e a criação de empregos. Infelizmente, o produto, na forma como é publicado e utilizado, somente contribui para promover visões simplistas e análises igualmente equivocadas sobre as políticas efetivamente implementadas nessas áreas. É mais uma dessas publicações que geram pouco conhecimento, mas muita mistificação.”

 Só resta acrescentar que a fragilidade conceitual e, no fim de tudo, dos resultados do “Doing Business”, não são uma exceção no mundo fervilhante dos rankings globais. São, na verdade, a regra.

 A conclusão do IEG sobre o DB vale também como regra. “O DB pode ser uma boa ferramenta para difundir debates, mas o Banco Mundial deve deixar claro o que os indicadores do DB medem e o que deixam de medir. É preciso informar que eles medem parcialmente os custos para os negócios de certas regulações e não qualquer dos seus benefícios”.

 Moral da história: quem quiser que acredite nos rankings, mas cuidado para não comer gato por lebre.

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