Os riscos da arrogância

José Paulo Kupfer

07 de dezembro de 2009 | 17h17

É muito recomendável a leitura do artigo do embaixador Rubens Ricupero, publicado na edição deste domingo da “Folha de S. Paulo” (clique aqui, para assinantes). É uma aula de como pensar uma política diplomática e, de quebra, um alerta sobre as armadilhas do poder.

 Ricupero critica as incoerências e a falta de medida do recente e intenso protagonismo do presidente Lula e de seu diplomacia no cenário internacional. Mas, diferentemente do bombardeio de uma oposição descabelada – ela também, por isso mesmo, incoerente –, o ex-secretário geral da Unctad, a agência da ONU para o comércio e o desenvolvimento, oferece elementos consistentes para a condenação do modo como Lula e o Itamaraty vêm conduzindo nossa política externa.

 No texto, Ricupero chama a atenção para a sensação de arrogância que, em nada parecida com nossa índole – até bem pouco nosso problema nesse campo era outro, o do rodrigueano “complexo de vira-latas” –, Lula começa a passar no exterior. À luz de alguns episódios recentes, não se pode dizer que Ricupero esteja inventando histórias ou querendo ver pelo em ovo.

 A famosa edição da revista The Economist, aquela em que, sob o título de “O Brasil decola”, a estátua do Cristo Redentor desprega do Corcovado como um foguete, já ressalvava os perigos de uma atitude desmedida e arrogante do presidente brasileiro e de sua política diplomática. O risco, lê-se na revista, da maior história de sucesso na América Latina é a “húbris”. No Houaiss, a palavra, originária da Grécia clássica, expressa em português um “orgulho arrogante ou autoconfiança excessiva”.  

Dois trechos do artigo de Ricupero resumem o ponto que ele lança ao debate. No primeiro, o autor imagina o que aconteceria se, em lugar da China, fosse o Brasil seduzido para formar um G2 com os Estados Unidos. No outro trecho, aponta incoerências gritantes.

Veja-se o contraste com a sobriedade e o realismo da China. Na recente visita de Barack Obama, o primeiro-ministro Wen Jiabao lhe disse, segundo a agência oficial, que “a China discorda da ideia de um G2, pois ainda é um país em desenvolvimento e precisa manter a mente sóbria”. Lamenta, mas não pode ajudar a resolver os problemas do Oriente Médio, do Afeganistão ou de outros lugares porque está muito ocupada em solucionar os próprios. Imagine como teríamos reagido se a oferta do G2 tivesse sido feita a nós?

Queremos ser mediadores no Oriente Médio e em Honduras, onde nossa influência é quase zero, enquanto a Unasul, que fundamos, completa um ano sem conseguir eleger o secretário-geral (Néstor Kirchner é vetado pelo Uruguai) nem encaminhar os conflitos que se multiplicam entre os membros. O erro não é querer ter um papel útil, mas fazê-lo de modo desastrado, sem medida nem coerência. A mesma diplomacia que não suja as mãos em contatos com o governo de fato hondurenho abraça o sinistro presidente iraniano, indiferente à negação do Holocausto, à fraude eleitoral, às torturas e condenações à morte de opositores.

Sem o preconceito mal disfarçado e o ressentimento incruado de muitas das críticas disparadas contra Lula, o Itamaraty e a política externa brasileira, o alerta de Ricupero quanto à busca compulsiva do presidente pelos holofotes internacionais é também um convite à reflexão sobre os mecanismos do poder e a sua maligna capacidade de corroer, com a colaboração nefanda dos áulicos, a possível boa intenção dos governantes. No caso, não só nas questões externas.

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