Os tempos são mesmo outros na economia

José Paulo Kupfer

16 de maio de 2008 | 21h00

Estive uns dias em Brasília, fazendo entrevistas para o IG, que começarão a entrar no fim de semana. Por isso, não deu para comentar na hora alguns interessantes temas do momento, como o detalhamento do Fundo Soberano e o levantamento do Ipea sobre a distribuição da carga tributária (que confirma a já conhecida e espantosa regressividade do sistema tributário brasileiro).

Não pretendo, contudo, abandonar esses assuntos. Também quero achar um tempo para colocar na pauta as recentes e emblemáticas mudanças na Previdência chilena, depois do estouro do sistema e o socorro do governo. Exceto o Estadão, que investiu forte no assunto, inclusive mandando a Santiago, para uma cobertura bastante completa, um de seus melhores repórteres de economia, Fernando Dantas, o resto da mídia enfiou a viola na saco. Terá sido vergonha dos anos e anos de elogios rasgados à Previdência capitalizada chilena, imposta pela ditadura Pinochet?

Mas não queria deixar de registrar um evento, para mim, quase chocante: a presença no Brasil, praticamente despercebida, de uma missão do FMI. Sou do tempo em que as missões do FMI chegavam com batedores abrindo passagem e provocavam verdadeiras comoções. Missões chefiadas por mulheres executivas, duronas como a chilena Ana Maria Jul, na primeira metade dos anos 80, véspera da moratória, com sua inseparável – e estufada de documentos sigilosos – pasta de couro. Ou a italiana Teresa Ter-Minassian, depois da mudança do regime cambial, em 1999, a economia quebrada, e seus vestidos de saias rodadas e estampas gigantes. Eram dias de correrias para nós, jornalistas, e de confusão por onde os economistas do Fundo passavam.

Na quarta-feira, 14 de maio, um dia antes do fim da visita, os oito membros do grupo, mais o diretor do FMI no Brasil, Paulo Medas, e o diretor executivo do Brasil no FMI, Paulo Nogueira Batista Jr., andavam pelo terceiro andar do ministério da Fazenda, sem nem quebrar o silêncio dos corredores, nem chamar a atenção de ninguém, em direção a uma salinha de reuniões apertada, onde, no começo da noite, terminariam o trabalho de coleta de dados. Não dava para acreditar no que meu olhos estavam vendo.

Só se ficou sabendo que o FMI estava aqui no dia seguinte, quinta-feira, 15 de maio, na saída de uma audiência do argentino José Fajgenbaum, chefe da missão, e seus colegas, com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, quando Fajgenbaum saiu elogiando tudo e todos – de novo algo inusitado para quem como eu, testemunhou, nas poucas palavras dirigidas à imprensa pelos antigos chefes de missão do FMI, sempre um tom de recriminação, ainda que diplomático, ao modo como o Brasil conduzia sua economia.

“As perspectivas para a economia brasileira são muito boas, as medidas do governo e do BC para conter a inflação são boas, a alta dos juros e o superávit primário são todas medidas boas e estão de acordo com as necessidades do país”, disse ele aos jornalistas de plantão no ministério. E foi pegar o avião de volta a Washington e às atribulações, não da economia brasileira, mas do próprio FMI.

Os tempos, sem qualquer sombra de dúvida, são outros.

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