Outros tempos

José Paulo Kupfer

24 de fevereiro de 2012 | 10h34

Não se pode estabelecer uma tendência apenas com os números de um mês – e ainda mais do primeiro do ano. Mas a evolução do setor externo, em janeiro, com o registro de um déficit em conta corrente recorde, se encaixa bem na dinâmica projetada para 2012.

Ainda que a sua cobertura, ao longo do ano, não esteja em questão, o déficit tende a aumentar em 2012 e a composição do conjunto de recursos em moeda estrangeira que ingressarão no País para cobri-lo deve mudar. Em resumo, nada que possa assustar, mas o quadro pode se apresentar menos confortável.

Estima-se que o déficit em contas correntes avance para as vizinhanças de US$ 70 bilhões, quase 35% acima do registrado em 2011. Ao mesmo tempo, o ingresso de investimento externo direto (IED), previsto em US$ 50 bilhões, diferentemente dos últimos anos, será insuficiente para, sozinho, cobrir o rombo.

Não há, porém, quem não acredite que o volume de aplicações em portfólio (mercados de ações e renda fixa), dará com sobras para preencher o déficit. Tanto que as apostas para a taxa de câmbio, no fim de 2012, nunca ultrapassam a barreira de R$ 1,75 por dólar.

Um déficit em conta corrente que pode evoluir de 2% do PIB, como em 2011, para algo mais perto de 3%, no ano seguinte, acenderia, em outros tempos, luzes amarelas. Mas isso quando o saldo negativo era coberto, preferencialmente, por dívida externa e, portanto, gerava mais déficit quando os juros da dívida tinham de ser pagos.

Hoje, o déficit em contas correntes é produzido por eventuais saldos comerciais negativos ou insuficientes para compensar o pagamento de serviços e rendas – fretes, seguros, projetos, remessas de lucros e dividendos – e gastos de brasileiros no exterior. E sua cobertura vem de recursos caracterizados como investimento.

Ficou para trás a época em que funcionários graduados do governo corriam o mundo em busca de “empréstimos-jumbo” ou financiamentos condicionados de organismos multilaterais. O problema das contas externas, atualmente, é mais de excesso do que de escassez. Nem por isso é o caso de relaxar.

Mesmo o dinheiro que entra sem exigência de pagamento em data certa e com juros determinados um dia será mandado de volta. É o que, por sinal, tem ocorrido em volumes crescentes, diante dos problemas enfrentados pelos investidores externos em seus países de origem.