Paraíso da arbitragem

José Paulo Kupfer

19 de julho de 2010 | 18h12

Os economistas de mercado, consultados pelo boletim Focus, divulgado nesta segunda-feira, consideravam, na semana passada, quando enviaram suas projeções semanais ao Banco Central, que a inflação do ano, medida pelo IPCA, continuava em recuo. Ao mesmo tempo, no entanto, mantiveram as previsões anteriores para a taxa básica de juros no fim do ano e de nova a alta de 0,75 ponto na reunião do Copom de amanhã e depois.

São movimentos que, simultâneos, não fazem muito sentido, mas, mesmo assim não deixam de ser previsíveis. Ao formularem políticas, os economistas de mercado, historicamente, preferem sempre um pouco menos de inflação a um pouco mais de crescimento. Na sustentação desse tipo de visão, os desarranjos que uma taxa básica de juros fora do lugar possam provocar costumam ser minimizados ou mesmo desconsiderados. Assim, não tem muita importância se a taxa de juros rodar em ponto mais elevado do que o necessário.

São muitos os impactos desses desequilíbrios. Fiquemos apenas com o efeito dos juros altos para o ingresso de recursos externos e, em consequência, uma excessiva valorização do câmbio. O óbvio é que, na existência de um acentuado diferencial de taxas, em relação às praticadas nos demais mercados, inclusive os mais desenvolvidos, haverá uma atração fatal por recursos especulativos, de olho exclusivo em ganhos financeiros de curto prazo.

Ao elevar a demanda por reais, no mercado cambial, esses recursos contribuirão para valorizar a moeda local, produzindo, em prazo relativamente curto, pressões negativas sobre o setor externo. O problema é que o impacto desfavorável não alcança apenas o balanço em contas correntes. O perfil da balança comercial sofre com a concentração de exportações em commodities e importações de bens e serviços com maior valor adicionado. E não é só.

A competição desigual com importados, sustentada pelo câmbio valorizado, desestimula a busca de inovação e adensamento tecnológico na manufatura local, processo que, num primeiro momento, parece indicar investimento na modernização do parque manufatureiro, mas logo se revela um calcanhar de aquiles competitivo.

Os defensores da política de juros altos e câmbio valorizado – uma equação perfeita para se obter sempre uma inflação um pouco mais baixa – empacotam pilhas de argumentos que fogem do fato inescapável: juros muito acima dos praticados em outros mercados é terreno fértil para arbitragens de taxas e ganhos fáceis à custa de uma economia local menos consistente e sustentável.

Para comprovar tal fato, se não bastasse a deterioração da balança comercial e a invasão chinesa, temos agora a prova direta. Como mostra a reportagem do colega Leandro Modé, no Estadão desta segunda-feira, nos primeiros cinco meses do ano, o ingresso de recursos para aplicação em renda fixa superou o de outras aplicações, inclusive os ditos investimentos diretos (que, atualmente, muitas vezes de direto na produção têm só o nome).

É a mais pura e irrefutável prova de que a arbitragem de taxas, como não poderia deixar de ser, comanda o ingresso de recursos externos. Pré-sal, Copa do Mundo, Olimpíada, mercado interno – tudo isso pode atrair capitais de fora. Mas, no fim das contas, eles operam mais como um fator a emprestar segurança a aplicações apenas preocupadas em aproveitar uma rentabilidade financeira grande e certa, não encontrável em nenhum outro mercado. O Brasil se transformou no paraíso da arbitragem.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.