Passado que condena

José Paulo Kupfer

09 de junho de 2009 | 13h01

Se houve surpresa, ela até pode ser considerada positiva. A queda da economia, no primeiro trimestre do ano, anunciada há pouco pelo IBGE, veio menor do que a esperada. Sobre o quarto trimestre de 2008, o recuo foi de 0,8% (1,8%, na comparação com o primeiro trimestre de 2008).

Mas, se, pelo visto, o desenho da evolução econômica não mostra um bicho tão feio quanto muitos pintaram, não é o caso de se iludir com ele. Na aventura de analisar o resultado do PIB do primeiro trimestre, incluindo na análise a situação em que se encontra a economia já nas bordas do fim do segundo trimestre, é possível tropeçar em várias pegadinhas.

É o caso, por exemplo, da famosa “recessão técnica” em que entramos. “oficialmente”, com a confirmação de que houve recuo no desempenho econômico em dois trimestres seguidos. “Recessão técnica” é uma bobagem técnica.  Serve apenas para acalmar a compulsão humana, exacerbada na modernidade pela fé na “ciência”, de classificar os fenômenos à nossa volta.

Uma economia que crescer 0,1% a cada trimestre não estará em “recessão técnica”. E daí? Para mim, recessão verdadeira, grosseiramente falando, é aquela situação em que os fatores de produção existentes, num período de tempo razoável, não encontram utilização.

Nesse sentido, estamos em recessão há pelo menos oito meses, que é o tempo em que o mercado de trabalho não foi capaz de absorver nem o estoque de mão-de-obra existente e muito menos os novos ingressantes. No Brasil, resumindo o argumento, crescer menos de 2% significa não ocupar a capacidade produtiva existente e, portanto, eis aí um crescimento que, na verdade, configura recessão. Na China, isso deve ocorrer com um crescimento abaixo de 5%.

Além disso, é bom não desprezar as peculiaridades dessa recessão. No ambiente atual, em que a economia afundou de modo abrupto e muito rápido, sem a natural e gradual depreciação dos ativos físicos e dos demais fatores produtivos, a retomada do presente faz o passado, medido pelos métodos de aferição das contas nacionais, ficar ainda mais distante.

Outra pegadinha para a análise do desempenho do primeiro trimestre é o fato de que o recuo veio menor do que o esperado. O consumo das famílias, apesar de tudo, cresceu. E o setor de serviços, apesar de tudo, idem. Há uma recuperação em curso e todas as projeções para o segundo semestre já são de crescimento. Será que no fim das contas não teria sido uma marolinha?

Melhor ir mais devagar. A recuperação é real, mas lenta e algo dificultosa. A sensação de que o pior já passou e que, enfim, não foi tão ruim é, em parte, enganosa. Deriva do fato de que, agora já se pode enxergar um pouco melhor, a crise atingiu muito desigualmente os setores econômicos. Quem tem na exportação uma fatia importante do negócio pagou mais o pato – e o pior é que continua pagando. Daí a situação menos rosada da indústria e da agricultura, apontada nas contas do primeiro trimestre, agora divulgadas.

Resta ainda o mais importante: o investimento. A queda foi particularmente violenta. As decisões de ampliar capacidade foram generalizadamente adiadas e investimentos em curso suspensos. Isso significa que a retomada em curso pode prosseguir numa boa até um certo limite. Depois de ocupar a capacidade instalada – que já vinha sob pressão quando a crise eclodiu, no início do quarto trimestre do ano passado – a marcha, que não está sendo rápida, pode ficar mais lenta ainda.

Para encurtar a história, os números agregados do primeiro trimestre vieram melhores do que o projetado. Mas, nas suas entranhas, carregam indicações que preocupam. É, sim, uma visão do passado. Só que esse passado, se não forem tomadas providências adequadas para corrigir e ajustar os rumos, pode nos condenar no futuro.

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