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Pé na jaca especulativo explica calote em Dubai

José Paulo Kupfer

27 de novembro de 2009 | 15h42

Quando um rastilho de pólvora começa a queimar em algum mercado financeiro global, nunca se sabe se vai até o detonador ou se apagará no meio do caminho, limitando perdas e riscos ao que fica pelo caminho das faíscas. Feita essa ressalva necessária, parece muito improvável que a quebra da Dubai World, uma das holdings estatais do rico paraíso turístico no Golfo Pérsico, jogue o sistema financeiro global em outra montanha russa.

 A moratória de seis meses solicitada pela empresa pode afetar alguns bancos credores e algumas empresas com as quais a holding mantém negócios, na maioria nas áreas imobiliárias e de construção pesada, inclusive de infra-estrutura. Havia desconfianças de que o mega-projeto imobiliário e turístico que a Dubai World que está no centro do calote não se sustentava. Mas bancos e investidores, apoiados nas promessas dos governantes do emirado, mais uma vez fecharam os olhos, ouviram o tilintar das moedas jorrando de caça-níqueis e enfiaram o pé na jaca especulativa.

 Daí, contudo, a um efeito-domínio vai distância. Como destacou um analista, citado pelo jornal New York Times, o colapso da Dubai World pode ter consequências graves para Dubai, mas não dá para ser comparado com o ocorrido no mercado imobiliário americano – o rastilho da crise global. A Dubai World acumula cerca de US$ 60 bilhões em dívidas. É dinheiro, mas comparado com o que teve de ser deglutido na seqüência da quebra do Lehman Brothers, desculpem a imagem, não passa de um grão de areia no deserto.

 Quando um calote desse porte é declarado, a corrida por ativos financeiros mais seguros, longe dos eventualmente contaminados pelo paralisação dos pagamentos, produz um sobredesvalorização de papéis de bancos e empresas mais expostas ao negócios da companhia em dificuldades confessadas. Foi o que se viu na quinta-feira e nesta sexta. A situação foi agravada pela insuficiência de informações sobre as razões do inesperado “default”.

 As verdadeiras dimensões dos tremeliques dos últimos dois dias, nos mercados asiáticos e europeus (o americano funciona a meia força nesta sexta-feira, depois do feriado do Dia de Ação de Graças, na quinta), só serão conhecidas na próxima semana. Há, como se sabe – e ficou muito claro na fase aguda da crise de 2008 – fortes interligações entre instituições financeiras. Além disso, não se pode esquecer que, justamente essas instituições, estão ainda bastante frágeis.

 As probabilidades de rápido retorno à atual “normalidade instável” dos mercados, dizem os analistas, são mais do que altas. É mais provável que o episódio, no fim das contas, sirva para lembrar que a economia mundial ainda inspira cuidados. E para reforçar a desconfiança de que os executivos que comandam as grandes empresas e os grandes bancos globais não aprenderam as lições da crise ainda em curso.

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