Pobreza como solução para aumentar a taxa de poupança

José Paulo Kupfer

30 de março de 2010 | 14h53

A teoria de que os brasileiros não são poupadores porque o Estado lhes garante boa vida na velhice, além de assegurar atendimento gratuito à saúde, tem tido alguma difusão recente. Ainda como uma catapora branda, tem pipocado com certa frequência, em artigos e comentários aqui e ali. Ela circula com mais desenvoltura nos meios do pensamento econômico ortodoxo e parte de comparações empíricas com outras economias, principalmente as asiáticas.

Os asiáticos, de fato, exibem padrão de poupança pessoal elevado, mesmo nos casos de populações de renda média baixa, como a da China. Segundo a teoria, os chineses, que poupam metade de sua renda, fazem-no porque não dispõem de um sistema previdenciário e de saúde que garanta, ao longo da vida, a perspectiva de uma renda suficiente na velhice.

Dessa constatação muito simples – para não dizer simplória – deriva a seguinte conclusão: o brasileiro não é estimulado a poupar porque tem a tranqüilidade da velhice assegurada por uma generosa previdência social. O fato de ser pobre, na imensa maioria, e quase sempre não lhe sobrar mês no fim do salário, não vem ao caso para a teoria. Vide, mais uma vez, os chineses.

Em artigo publicado, em fins de janeiro, no jornal “Valor”, os professores Pedro Cavalcanti Ferreira e Renato Fragelli Cardoso, da Escola de Pós-Graduação em Economia (EPGE), da FGV-RJ, reduto do pensamento ortodoxo onde a teoria teve origem, escreveram a seguinte pérola, que resume bem a teoria:

“Os chineses poupam muito e os brasileiros muito pouco. Isso não ocorre porque os brasileiros são intrinsecamente diferentes dos chineses, mas porque reagem a incentivos econômicos muito diferentes. Um trabalhador brasileiro de baixa renda, caso atue no setor formal, não tem estímulo a poupar, pois receberá aposentadoria integral do INSS. Se estiver no setor informal, terá direito ao LOAS, a um benefício mensal de um salário mínimo – equivale a mais de um terço da renda per capita nacional –, mesmo que nunca tenha contribuído para o INSS (…)”

É uma beleza de raciocínio. Por ele, o problema macroeconômico da baixa taxa de poupança ficará resolvido no dia em que o Estado deixar de prover os brasileiros, sobretudo os mais pobres, com o excessivamente generoso benefício da previdência social. Quase num passe de mágica, o brasileiro, essa conhecida cigarra, tendo de largar as tetas estatais que o mantém na moleza, se transformará numa operosa formiga asiática.

É, realmente, um ovo de Colombo. Dos mais de 28 milhões de benefícios pagos pelo INSS, algo como 18,5 milhões – cerca de dois terços – somam até um salário mínimo. Basta então retirar o benefício – i-n-t-e-g-r-a-l! – e, assim, estimular os beneficiários a poupar, como os chineses, metade de sua renda, para que a poupança nacional cresça forte e robusta.

Com meio salário mínimo mensal para consumir, esses privilegiados brasileiros, que formam a imensa maioria dos beneficiários da previdência, poderão viver, alegremente, abaixo da linha de pobreza. E – olha que maravilha?! – nossos sempre instáveis fundamentos macroeconômicos, mesmo com o consumo interno mais fraco, ganharão, enfim, a solidez que todos almejamos.

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