Prego no caixão neoliberal

José Paulo Kupfer

15 de setembro de 2009 | 09h12

A quebra do lendário banco de investimento americano Lehman Brothers, em 15 de setembro do ano passado, não determinou apenas a data histórica do início da mais recente crise econômica global. Não só em razão de sua extensão e profundidade, mas, sobretudo, pela incapacidade dos economistas de prever e evitar o desastre que se anunciava há anos, o “crash de 2008” decretou também o fim de uma era de crenças na eficiência dos mercados, em sua autorregulação e na racionalidade absoluta dos indivíduos na tomada de decisões econômicas.

Terminou um tempo aprazível em que foi possível acreditar no fim das incertezas no funcionamento do mercado. Como já se soube outras vezes na história econômica, sabe-se de novo agora que “eficiência”, “autorregulação” e “racionalidade”, as bases da construção teórica agora em xeque, são apenas utopias, às quais, se talvez fosse o caso de persegui-las, jamais deveria ter sido o caso de entregar-se tão integralmente a simples abstrações.

A hegemonia do pensamento neoliberal, tão aplastrante, terminou sem que tivesse aparecido uma construção alternativa para tomar o seu lugar. Mas a crise, como é típico das crises, cumpriu o seu papel. Ao rasgar o estatuto ortodoxo e abrir os braços para a mais agressiva intervenção estatal de que se tem notícia, zerou o jogo. O sonho de um sistema econômico que funcionasse sem levar em conta a História, como os demais de mesmo teor em outros campos do conhecimento, acabou escoando pelo ralo da própria.

Vinha de longe esse sonho. Suas primeiras manifestações podem ser localizadas há quase 60 anos, em paralelo à consolidação do sistema de bem-estar social que prevaleceu na superação da Grande Depressão e das conseqüências da II Guerra Mundial. Estão na base do monetarismo de Milton Friedman, da escola de Chicago, e na busca das “taxas naturais” de desemprego – nunca, diga-se logo, devidamente comprovadas pela realidade  –, a partir das quais a economia funcionaria, em qualquer lugar ou circunstância, sem atritos inflacionários.

Expressa pela erupção de surtos inflacionários, mesmo em ambiente de baixo crescimento, a crise dos anos 70, forjada pelo descontrole fiscal dos gastos do governo americano com a guerra do Vietnã e pelas disfunções do sistema de proteção social desenvolvido na Europa, encontrou, nas formulações de Friedman e seguidores, a construção teórica conveniente para uma nova era econômica. Em meio a um tempo de estagflação, o keynesianismo, teoria econômica que tirara o mundo da depressão dos anos 30, com a introdução de um “regente” governamental para a orquestra do mercado, deu lugar ao ressurgimento das idéias neoclássicas. Eram, no fundo, as mesmas com as quais não se conseguiu evitar o crash de 1929, mas com roupagem renovada.

Menos intervenção de governos e mais ação de bancos centrais, suprindo o mercado do volume de dinheiro suficiente para evitar crises – eis, em resumo, a receita subscrita pela nova hegemonia do pensamento econômico.  O reaganomics, com corte de impostos para os ricos, e o tatcherismo, com a privatização de empresas e cortes nos gastos com proteção social, serão as expressões políticas que darão sustentação à construção teórica emergente.

É nesse terreno bem adubado por uma crescente financeirização  da economia que consumidores e contribuintes se transformaram, antes de mais nada, em investidores. Apoiados pelas facilidades trazidas pela informática, complexos sistemas de prevenção de riscos e precificação de ativos espraiaram-se das formulações financeiras para o funcionamento geral da economia.

No mundo das finanças eficientes e das equações de risco, é natural que o ensino da economia e a pesquisa na área tenha se deslocado de um lugar político e filosófico para um outro, comportamental e matemático. A economia se aproxima da psicologia e não é por coincidência que, justamente nesse período, psicólogos ganharam o Prêmio Nobel de Economia. 

É paradoxal, no entanto, que o apogeu da teoria do fim das incertezas e das expectativas racionais coincida com a eclosão da maior sucessão de crises econômicas em séculos. Nas últimas três décadas, os mercados foram abalados por turbulências de grande monta em pelo menos meia dúzia de vezes.

O  crash de 2008 – que, na verdade, começou em 2007 –, a mais geral e profunda de todas as muitas crises ocorridas desde os anos 80 do século passado, foi o prego no caixão dessa construção teórica, que se arvorava a única “científica”, mas é tão ideológica quanto qualquer outra e, como qualquer outra, incapaz de, isoladamente, evitar o pior. Os sabichões da “ciência revelada” continuarão a arrotar sabedoria, mas sua credibilidade vale muito menos do que deverá valer o dólar daqui para frente.

Um ano depois da eclosão da crise, ainda não é possível saber que nova construção econômica emergirá para tentar evitar as próximas crises. Uma hipótese desejável é a de que, no campo da economia política, a política volte a ter uma dimensão que a economia havia sufocado.

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