Preocupação com a demanda

José Paulo Kupfer

19 de maio de 2008 | 20h44

Como demonstrou o presidente Lula, em seu programa semanal de rádio, levado ao ar hoje, o governo está preocupado com a inflação. No ministério da Fazenda, mais precisamente no gabinete do ministro Guido Mantega, a impressão que se tem, quando se conversa com ele, é a de que, lá se considera que o grosso do problema derive do preço dos alimentos, mas não só.

Há olhares também para as commodities metálicas, os derivados de petróleo e, por último, mas não por fim, o aquecimento da demanda. Na entrevista que fiz com o ministro Mantega, ele não escondeu que considera a demanda aquecida e que pretende dosá-la. “Queremos que a demanda continue robusta, mas não seja explosiva”, declarou Mantega (clique aqui para ler a entrevista do ministro Guido Mantega ao IG). Esta é uma novidade, na ala dita heterodoxa do governo. Preocupar-se com excesso de demanda era, até aqui, coisa da ortodoxia concentrada em torno do Banco Central.

Conter os eventuais excessos de demanda, sem quebrá-la, eis aí o desafio que a Fazenda gostaria de vencer. As isenções de tributos que vêm acompanhando, nos últimos dias, os aumentos dos preços de alguns produtos – como a gasolina, que ficou sem a Cide, e a cadeia do pão, da qual foi retirado o peso do PIS e da Cofins – é um jeito de reduzir a pressão dos preços, sem esfriar a demanda. Já o aumento de impostos sobre empréstimos pessoais, no crédito direto ao consumidor ou compulsórios sobre modalidades específicas têm o objetivo explícito de encarecer o crédito e arrefecer a demanda de duráveis.

A preocupação em conter a demanda é o que explica porque, na Fazenda, a idéia é destinar os chamados “excedentes” do superávit fiscal primário para o “cofrinho” do Fundo Soberano, em lugar de consumi-los em isenções de tributos. Na verdade, o fundo soberano arquitetado por Mantega, não deveria ter esse nome. Afinal, ele não segue a regra dos fundos soberanos, que existem para evitar que sobras de dólares e sobras fiscais produzam valorização excessiva da moeda local.

Aqui, não há, a rigor, sobras, nem em contas correntes, nem fiscais. Mas, além de competir com o Banco Central na compra de dólares, para evitar o derretimento do dólar frente o real, o fundo soberano assume o papel típico de um fundo de estabilização fiscal, com a retirada de circulação de demanda do governo. A diferença é que, em lugar de esterilizar os recursos no superávit primário, o fundo usará o dinheiro como uma espécie de Eximbank tupiniquim, financiando exportadores brasileiros e importadores de produtos brasileiros.

Se for bem administrado, pode dar samba.

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