Presidente do BC alerta para tensões na economia que, segundo ele mesmo, não existem

José Paulo Kupfer

21 de dezembro de 2009 | 08h00

Uma lenda, que remonta aos tempos em que, no mundo das finanças, os animais falavam, diz que presidente de Banco Central fala pelas atas da instituição. Isso, realmente, nunca passou de lenda. Quando não queriam falar, os presidentes de BCs recorriam a ela. Quando queriam falar, falavam e pronto.

O presidente do nosso BC, Henrique Meirelles, volta e meia invoca a lenda. Mas, quando quer falar, fala pelos cotovelos. Na verdade, se computarmos o que fala a jornalistas fora dos microfones e das páginas impressas, fala pelos cotovelos e pelos antebraços.

Falas de presidentes de BCs, presumivelmente, têm alguma função. Nem sempre – e nem sempre dá certo. A última falação de Meirelles foi para os jornalistas Patrícia Duarte e Sergio Fadul, do jornal “O Globo”. Na entrevista, publicada na edição deste domingo, a chamada “autoridade monetária” respondeu às perguntas com tautologias variadas. E uma delas foi parar na manchete do jornal. Se fosse para ser o que interpretaram do que Meirelles disse, era de preocupar. Mas, felizmente, não é o que se lê no corpo da entrevista.

Meirelles, segundo as letras ampliadas da manchete do jornal, faz um alerta para a tensão que a eleição presidencial pode gerar na economia em 2010. A mensagem que explode da manchete parece clara: coloquem as barbas de molho com economia brasileira no ano que vem. Outra mensagem poderia ser a seguinte: eleições perturbam o mercado financeiro. A pergunta que resulta dessa mensagem é natural: melhor, então, não tê-las?

Uma leitura mais sóbria da resposta de Meirelles, contudo, é suficiente para acalmar quem poderia começar a se inquietar. “Acho que o cenário interno tenderá a gerar mais tensão no ano de 2010”, respondeu Meirelles a uma pergunta sobre o foco das preocupações no ano que vem, se o cenário externo, como em 2009, ou o interno. “É normal que num ano eleitoral sempre exista um pouco mais de preocupação com o futuro”, continuou, respondendo por que achava que deveria haver mais preocupação desta vez com o cenário interno.

Tal preocupação, meramente de calendário, segundo Meirelles, não tem nem a ver com os possíveis candidatos à Presidência. “Em qualquer circunstância, em qualquer ano eleitoral”, detalhou o presidente do BC, “sempre um processo de mudança gera algumas perguntas e isso é normal.” De qualquer modo, “é remoto, para não dizer inexistente”, conforme Meirelles, o risco de que, como lhe foi indagado, possam vir a ocorrer “distorções profundas nos indicadores econômicos como nas eleições de 2002”.

O resumo da coisa toda é que não sendo nada, não é nada mesmo. Mesmo sendo nada, fiquemos tranqüilos, pois o BC, segundo seu presidente, “evidentemente”, está preparado e muito bem equipado para manter o equilíbrio, normalmente.  Seria de intranquilizar se não estivesse, embora o que está por trás da afirmação é que eleições (e, enfim, qualquer evento, até unha encravada) pressionam os juros para cima.

Fiquemos tranqüilos, no fim das contas, porque, se a preocupação com 2010 não é a de que sobrevenha uma crise, também não preocupa a hipótese de mudança na política econômica, em razão de quem venha a ser o novo presidente. “O que eu digo no mundo inteiro”, lembrou Meirelles, “é que acho que não há espaço para mudança de política econômica, em virtude dos ganhos trazidos pela estabilidade”.

Diante de tanta ameaça inexistente, talvez fosse mais adequado que o presidente do BC, com todo o respeito, se limitasse a falar pelas atas, evitando arriscar-se a produzir tensões quando, segundo ele mesmo, elas não existem.

 

Atualizado às 12h45

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