Pressões e sanções

José Paulo Kupfer

30 de setembro de 2011 | 19h10

Não é para bancar o urubulino, mas faz parte do dever do ofício chamar a atenção para a trajetória de contração da economia brasileira. Se até o fim do segundo trimestre a freada não era nada clara – os indicadores, como se diz quando os mercados apontam em direções diferentes, apresentavam tendências mistas –, está ficando cada vez mais evidente que a economia brasileira embicou para baixo.

Neste momento de pressões inflacionárias pelo lado do câmbio e, no futuro já contratado, pela alta taxa de reajuste do salário mínimo, não se pode analisar a conjuntura econômica sem levar essa tendência em conta. A concretização, sob a forma de alta nos índices de inflação, dessas pressões depende não só da persistência delas no tempo. É função também do comportamento da demanda, reflexo resumido do ritmo da atividade econômica. É uma demanda mais ou menos aquecida que pode sancionar – ou não – essas pressões.

Ao longo do ano, o desempenho da economia vem subindo no telhado. As estimativas de crescimento foram fazendo água. Os 4,5% projetados no primeiro boletim Focus de 2011 contraíram-se a 3,5%, no último de setembro. Um recuo ainda maior, no rumo de 3%, com viés de baixa, no fim do ano, é uma boa aposta.

As informações oferecidas, nesta sexta-feira, pelo economista Aloísio Campelo, superintendente adjunto de ciclos econômicos da FGV-RJ, reforçam essa impressão baixista. Segundo Campelo, o nível de utilização da capacidade instalada repetiu em setembro o índice de 83,6% registrado em agosto e pode chegar ao fim do ano abaixo da média histórica de 83,3%. “Dadas as condições menos favoráveis da demanda interna e o fato de o atual patamar estar em uma marca muito próxima da média histórica, é possível ocorrer a oscilação para baixo nos próximos três meses”, afirmou Campelo ao colega Ricardo Leopoldo, da Agência Estado.

Segundo Campelo, a sondagem conjuntural da indústria de transformação, realizada pela FGV, permite prever uma queda no emprego, no quarto trimestre, inferior à média histórica apurada desde janeiro de 2003. Campelo considera que a tendência do emprego industrial é cair até dezembro.  E, naturalmente, apurou que o ânimo empresarial para investir se apresenta desfavorável.

Por essas e outras, repito aqui o que escrevi no post de ontem: “hoje, a inflação pressiona. Daqui a alguns meses, a pressão pode vir no sentido contrário, em razão de desânimo na economia.”

 

 

 

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