Previsões imprevisíveis

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Previsões imprevisíveis

José Paulo Kupfer

29 de dezembro de 2008 | 16h29

Comparar as previsões dos economistas de mercado, para cada ano que começa, com o que de fato revelam os indicadores macroeconômicos, a cada ano que se encerra, é quase um exercício de sadismo.  Já sabemos que a distância entre uma coisa e outra será de tal magnitude que, no fim das contas, indicarão mesmo de duas, uma, ou pior, as duas: 1) as previsões econômicas têm pouca serventia; ou 2) os economistas que as fazem não estão capacitados para fazê-las.

Não foi diferente desta vez. As discrepâncias são tais que falam por si mesmas. De todos os erros que chamam a atenção, o que mais chama, como, aliás, tem sido a regra, são os verificados no setor externo.
 
Aqui vão as previsões Focus para 2008, reunidas pelo Banco Central, em 4 de janeiro (e publicadas em 7 de janeiro), e, em seguida, os resultados do ano (a menos de pequenos ajustes), apurados em 26 de dezembro (publicação em 29 de dezembro):

 

Indicador                                   4 de janeiro              26 de dezembro

PIB (evolução no ano, em %)                     4,5                                       5,6

Inflação (IPCA, em %)                                4,39                                   6,03
 
Taxa de câmbio (fim do ano, R$/US$)         1,80                                 2,35
 
Taxa de juros (Selic, fim do ano, % ao ano)    10,75                           13,75
 
Saldo em conta corrente (US$ bilhões)          -4,35                           -29,0
 
Saldo da balança comercial (US$ bilhões)       31,9                             24,0 
 
Investimento Estrangeiro direto (US$ bilhões)       27,5                       36,45

O boletim Focus é uma espécie de cachorro que morde  o próprio rabo. O Banco Central reúne as projeções de uma centena de macroeconomistas de bancos, consultorias e instituições diversas, semana a semana, ao longo do ano. Com isso, pretende obter informações sobre as tendências correntes na economia e, a partir delas, definir os rumos da política monetária (e cambial). Mas o BC também se vale do sistema de informações – um sistema que se retroalimenta dele mesmo – para enviar suas mensagens e, enfim, como dizem no dialeto do mercado, “coordenar expectativas”.
 
É justo dar um desconto na cobrança das discrepâncias porque, embora muitos desejassem que fosse diferente, os fatos não costumam consultar as projeções antes de ocorrerem. Principalmente em anos como este de 2008, marcado por uma crise institucional histórica, que virou a economia de cabeça para baixo.
 
Para não deixar de seguir a praxe, aqui vão as projeções pardo Focus para 2009, coletadas pelo BC em 26 de dezembro de 2008:

PIB (evolução no ano, em %)                                                  2,44
 
Inflação (IPCA, em %)                                                              5,0
 
Taxa de câmbio (fim do ano, R$/US$)                                    2,25
 
Taxa de juros (Selic, fim do ano, % ao ano)                            12,0
 
Saldo em conta corrente (US$ bilhões)                                 -25,0
 
Saldo da balança comercial (US$ bilhões)                             15,0

Investimento Estrangeiro direto (US$ bilhões)                      21,50

A crítica dos erros, de qualquer forma, não pode ser invalidada. Mesmo quando a evolução dos fatos econômicos podia ser considerada “normal”, a distância entre o previsto e o ocorrido tem passado muito longe da margem de erro tolerável.
 
Em outras palavras, os erros de previsão, pelo menos na economia brasileira, de tão amplos e tão costumeiros, deveriam reduzir o valor das projeções de mercado nas formulações de política econômica do Banco Central. Ma, pelo menos no atual mandato,  a previsão de que não será assim é uma das poucas nas quais se pode ter certeza de que serão confirmadas pela realidade.

 

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