Projeções do passado

José Paulo Kupfer

29 de dezembro de 2009 | 12h11

O período das festas de fim de ano não é só um tempo de perus, bacalhau e rabanada. É tempo também das projeções econômicas.

Muito oportuno, portanto, o comentário de um amigo, altíssimo executivo financeiro, que já esteve lá, numa diretoria do Banco Central, e está, faz tempo, no setor privado, no comando, em grandes bancos, de áreas às quais se subordinam os departamentos de pesquisa econômica e seus famosos economistas-chefes. Vai reproduzido logo abaixo.

Meu propósito, ao reproduzir o comentário, é, como sempre, tentar relativizar as projeções, dando-lhes o peso que deveriam ter. Principalmente essas projeções do Focus, um típico exercício de cachorro que morde o próprio rabo.

Foram divulgadas, nesta segunda-feira, as últimas projeções do Focus, em 2009. Seria maldade cotejar as previsões do Focus para 2009, feitas em fins de 2008, com o que está agora registrando a dura vida real. Afinal, o ano que está se encerrando foi daqueles que se podem qualificar, sem medo de errar, como atípicos.

Mas não dá para deixar de constatar que a distância entre o futuro projetado e a realidade ocorrida é de anos-luz. O IGP-M, que deu deflação, era para subir 5,5%, o PIB, que recuou uns 0,2%, teria expansão de quase 2,5% e por aí vai.

No caso da taxa de câmbio, confirma-se o que a curva aí embaixo mostra de modo claro.  A previsão para o fim de 2010 reproduz o que se verifica no momento presente, fins de 2009. Em fins de dezembro de 2008, quando o câmbio estava em torno de R$ 2,35 por dólar, o Focus previa R$ 2,25 para o período atual. Agora, fins de 2009, a taxa está em R$ 1,74 (um erro feio). Adivinhem qual a projeção para fins de 2010? Isso mesmo: R$ 1,75.

O ex-ministro Pedro Malan dizia que, no Brasil, até o passado é incerto. Nada mais natural então que, no Brasil, também as projeções projetem o passado.

* * *

Aqui está o gráfico e, depois dele, o comentário.

Gráfico taxa de câmbio

“A linha vermelha mostra a evolução das previsões dos economistas para o dólar no final de 2009, segundo o Relatório Focus, do Banco Central, que consolida a média das previsões de 90 instituições financeiras. A linha azul mostra a vida como ela é, ou seja, o dólar no mercado à vista.

As duas curvas são bastante coladas, mas dá também para perceber que o mercado à vista antecipa as “previsões” para o final do ano. É como se, na ausência de qualquer metodologia para se chutar quanto será o dólar no final do ano, o “mercado” dissesse que o futuro será o que é indicado pelo mercado à vista.

Ou seja, como não se tem a mais pálida ideia do futuro, é melhor apostar que nada vai mudar e no final do ano a taxa será muito parecida com o cambio do dia em que a previsão é feita…

O Jô Soares, quando era engraçado, tinha um personagem chamado Múcio, um que sempre concordava com o chefe – mesmo quando o chefe mudava abruptamente de opinião. Parece que os economistas fazem previsões para o câmbio da mesma forma.

Nem os meteorologistas chegaram a tanto…”

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