Qualidade alterada

José Paulo Kupfer

20 de maio de 2014 | 12h26

O ingresso de capital externo já foi mais exuberante em anos recentes, mas ainda coloca o País em posição de destaque global. Mesmo tendo sido superado pela Rússia na segunda posição do ranking do fluxo de IED para economias emergentes, que é liderado a léguas de distância dos demais pela China, o Brasil mantém um honroso terceiro lugar.

Apesar do pessimismo com a economia brasileira, o investimento estrangeiro direto (IED) continua “surpreendendo”. Ainda que as previsões para os próximos anos apontem uma tendência de redução dos ingressos, os fluxos destinados ao mercado doméstico mantêm-se acima de US$ 60 bilhões ao ano, em torno do equivalente a 2,5% do PIB.

Dados quantitativos, porém, nunca contam toda a história – e, no caso, do IED, isso costuma ser particularmente verdadeiro. O perfil setorial dos ingressos, por exemplo, tem passado por alterações estruturais que alteram também sua qualidade. Como chama a atenção o Boletim Sobeet, de maio deste ano, o ingresso de IED, nas últimas três décadas, fez uma decidida migração da indústria para o setor de serviços.

Entidade que reúne pesquisadores, consultores e empresários em torno de estudos sobre os impactos da globalização na economia brasileira, a Sobeet revela preocupação com os efeitos dessa preferência nas próprias contas externas. “A crescente participação de segmentos voltados ao atendimento da demanda interna”, registra a Sobeet, “reduz a disponibilidade de recursos que poderiam ser aplicados em outras atividades que resultassem em ganhos de exportação.”

Como proporção dos estoques de IED, entre 1980 e 2011, e dos fluxos de ingressos externos diretos, no período de 2012 ao primeiro trimestre de 2014, verifica-se uma inversão nas posições da indústria e dos serviços. De 75% do total, em 1980, a parcela de IED destinada à indústria recuou para pouco mais de 20%, em março de 2014. Já os serviços, que representavam 22% do total, em 1980, agora respondem por 68% do volume ingressado.

É curioso como a destinação do IED acompanha as características do crescimento da economia e das apostas de política econômica, a cada período. Em cinco anos, entre 1995 e 2000 – ano em que, como consequência da aceleração das privatizações, com destaque para telecomunicações, transporte, energia e bancos, o volume de IED alcançou o equivalente a 5% do PIB -, os investimentos em serviços, em proporção do total, dobraram (de 31% para 64%), ao mesmo tempo em que os ingressos destinados à indústria reduziram-se à metade (de 67% para 34%).

O recente incremento dos investimentos estrangeiros diretos no setor primário vai na mesma direção. A partir de 1980, e durante os 30 anos seguintes, a parcela de IED destinada ao setor primário ficou estável, entre 3% e 4% do total. A partir de 2010, porém, ocorreu um salto e os ingressos quadruplicaram, como porcentagem do total. Como ressalta o boletim da Sobeet, os recursos externos destinados ao setor primário se dirigem, na quase totalidade, para o segmento de petróleo e gás, na esteira da intensificação das atividades na área, com o pré-sal.

Além da concentração em segmentos “não comerciáveis”, voltados para o mercado doméstico, o ingresso de IED, em tempos mais recentes, com exceções sobretudo no setor automobilístico, dirigiu-se mais a aquisições de ativos existentes do que à criação de negócios ou ampliação de capacidade em negócios já implantados. Cerca de 60% do IED mais recente, de fato, representam apenas transferências de controle de ativos.

Essas novas características indicam perda de qualidade na contribuição do IED para a economia. Assim como, ao se concentrar em serviços, o investimento estrangeiro direto passou a contribuir menos para a expansão das exportações, concentrado em aquisições colabora menos para elevar a taxa de investimento.

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