Rankings econômicos: modo de usar

José Paulo Kupfer

08 de setembro de 2009 | 16h48

Só depois de escrever o texto abaixo é que tomei conhecimento da versão de 2009 do tradicional relatório do Banco Mundial que divulga um ranking dos países em que é mais fácil ou mais difícil “fazer negócios” – “Doing business 2010”.  O Brasil, com suas burocracias, carga tributária, rigidez das leis trabalhistas etc. etc e etc. aparece, como sempre na rabeira da lista. E, em 2009, ainda piorou de posição.

Ninguém, em sã consciência, pode negar essas dificuldades. Não só para fazer negócios, mas para tocar a vida cotidiana, os brasileiros passam por cobranças e apertos burocráticos, na maior parte dos casos, desnecessários.  

O problema é que os critérios, como nos demais rankings, são para lá de parciais e, pior do que isso, sujeitos às chuvas e trovoadas das ideologias econômicas.

O “Doing business” reconhece as limitações de seus critérios, de um modo exemplar. Alerta para o fato de que “tão importante quanto saber o que ele faz, é saber o que ele não faz”.

O levantamento foca na quantidade de procedimentos para abrir e fechar firmas, tempo gasto para pagar impostos, obter créditos – papelada para conseguir crédito, não seu volume ou disponibilidade – e por aí. A preocupação principal é com o ímpeto reformador de cada país, na linha de tornar as regulamentações mais leves e eficientes.   

O “Doing business” não abrange a situação macroeconômica do país, a qualificação da mão-de-obra, a segurança do trabalho (não avalia, por exemplo, se os trabalhadores têm direito a uma negociação coletiva com os emptegadores), a solidez e a funcionalidade do sistema financeiro etc.

Como o próprio relatório afirma, ele é uma espécie de teste de colesterol, que diz muito, mas não tudo sobre as condições de saúde. 

Por essas e outras, países como Tonga, Kiribati (segundo a Wikipedia, um conjunto de atóis, na Micronésia, com pouco mais de 100 mil habitantes, que vive da pesca) e… Paraguai, acabam bem situados no “Doing Business”.

Rankings, como o “Doing business” podem ser úteis. Mas, como alertam as bulas dos remédios, é preciso saber usar.

* * *  

Saiu nesta terça-feira a edição 2009-2010 do “Relatório da Competitividade Global”, publicado pelo Fórum Econômico Mundial. O Brasil foi destaque, com um avanço de oito posições, em relação ao ranking de 2008. Foi, entre as 133 economias avaliadas, a que mais avançou. No ranking deste ano, Brasil aparece no 56º. lugar.

Só nos últimos três anos, subiu 16 posições. Com isso, a competitividade da economia brasileira, que se posicionava no terceiro quartil da lista – ou seja, abaixo da média dos países – está agora no segundo quartil – ou seja, acima da média.

Parece bom para o Brasil – e é.  Só que rankings desse tipo não devem nunca ser analisados sem relativizar seus achados e qualificar os métodos de elaboração. São boas referências, principalmente quando o objetivo é avaliar a evolução do país com ele mesmo, ao longo do tempo. Apenas não permitem ir muito mais longe do que isso.

No ranking da competitividade, de 2009, da prestigiosa escola de negócios suíça IMD, por exemplo, o Brasil saiu pior na foto. Segundo o “Livro do ano da competitividade mundial”, num grupo de 57 países avaliados, o Brasil ficou em 40º. lugar.  Melhorou apenas três posições, em relação ao ranking de 2008, e permaneceu no terceiro quartil da lista – posicionando-se entre os que exibem competitividade pior do que a média.

A ambição de enfiar num mesmo saco países em diferentes estágios de desenvolvimento, não só econômico, mas também político e social – sem falar na cultura de cada qual -, limita, por definição, o poder de explicação dos rankings. Isso sem falar do problema fundamental de seleção e definição dos critérios de avaliação. Não há como evitar que as ideologias, expressas pelos cirtérios de comparação selecionados, interfiram nos resultados. Na formulação de seus critérios, os rankings do Fórum Mundial e do IMD são claramente influenciados pelo Consenso de Washington.

Há, ainda, no caso de rankings como o do Fórum Mundial e do IMD um forte componente de subjetividade. Além das estatísticas frias, eles levam em conta as impressões de economistas, executivos e empresários, que são chamados a opinar por meio de respostas a questionários e/ou entrevistas.

Basta passar os olhos pelas listas para perceber que as dificuldades das comparações. O ranking do IMD, por exemplo, classifica Peru e Cazaquistão como mais competitivos do que Brasil e Espanha. E no do Fórum Mundial, Barbados e Azerbaijão estão à frente do Brasil, que, aliás, aparece praticamente empatado com as Ilhas Maurício.

Isso se não se for um pouco mais ao detalhe. No critério “instituições”, o primeiro dos 12 pilares em que se sustenta seu ranking, o Fórum Econômico Mundial avalia níveis de intervenção governamental na economia, respeito à propriedade, inclusive intelectual, maior ou menor grau de corrupção no setor público e de escândalos empresariais no setor privado privado, e quetais. Nesse item, entre 133 países, o Brasil ocupa a 93ª. posição, atrás da China, que, como se sabe, respeita muito tudo isso,  e de… Burkina Faso.

 

Atualizado em 09/09/2009, às 11h50

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