Razões de sobra para a pausa

José Paulo Kupfer

29 de maio de 2014 | 09h27

Eram muitas as razões para que o Comitê de Política Monetária (Copom) decidisse interromper o mais longo ciclo de elevação da taxa básica de juros desde a adoção do sistema de metas de inflação. A primeira delas tinha sido antecipada pelo índice de atividade econômica (IBC-Br) de março, anunciado pelo próprio Banco Central, há duas semanas, e que deve ser confirmada amanhã, quando está prevista a divulgação da evolução do PIB, pelo IBGE: a economia estaria rodando, no momento, a pouco mais de 1% ao ano, com o nível de atividade transitando de morno para frio.

Assim, o famoso efeito cumulativo e defasado da política monetária, tão repisado pelos dirigentes do BC, passado o choque de oferta de alimentos provocado pela inesperada estiagem do verão, estaria, finalmente, dando o ar da graça. Com isso, as altas de preços tenderiam a aliviar, diminuindo a necessidade de subir os juros.

Com a ajuda do esfriamento da economia, os próprios índices mensais de inflação estão ingressando numa temporada sazonal de baixa. Projeções sinalizam variações descendentes, como tem ocorrido em anos recentes, no período entre maio e agosto. Sim, os acumulados em 12 meses devem continuar a subir, inclusive superando, provavelmente em julho, o teto da meta. Mas isso se deverá, principalmente, à fatalidade aritmética de uma base de comparação mais baixa, mês a mês, em 2013 – não a novas pressões nos preços.

Há ainda o problema da administração da taxa de câmbio. O real não pode ficar tão desvalorizado ante o dólar que empurre a inflação para cima, mas também não deve se valorizar tanto que adicione novas dificuldades aos problemas específicos de competitividade do setor externo da economia. No sistema de câmbio flutuante, juros em alta tendem a valorizar a taxa de câmbio. Com a atual calmaria nos mercados globais, nova alta da taxa Selic tenderia a jogar a taxa de câmbio ainda mais para baixo.

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