Razões (não declaradas) para que o Fed mantenha os juros

José Paulo Kupfer

21 Setembro 2016 | 17h01

O Federal Reserve, mais uma vez, manteve inalterados, nesta quarta-feira, entre 0,25% e 0,5% ao ano, os juros de referência dos fundos federais, mas continuou com sua dança de expectativas sobre uma iminente elevação da taxa básica, na economia americana. Seguiu, com a manutenção da taxa, o que, nos últimos dias, ganhou a preferência dos analistas, com os mesmos argumentos de sempre: a economia continua a melhorar, mas ainda muito lentamente, e a inflação também dá sinais de querer romper a estagnação em que se encontra, rumo à meta de 2%, mas também ainda muito lentamente.

No comunicado divulgado no encerramento da reunião de setembro, o Fed insinua, com um pouco mais de ênfase, é verdade, o que já se tornou tradicional: pode aumentar os juros nas próximas reuniões do seu colegiado de dirigentes, o Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês, equivalente ao nosso Copom), nos primeiros dias de novembro ou em dezembro. Há quase um ano, depois de uma elevação de 0,25 ponto porcentual na taxa entre zero e 0,25% vigente desde 2008, o Fed mantém os juros de referência estacionados, mas dá sinais de que pode subir a taxa logo à frente.

Há, no entanto, razões, também mais uma vez não diretamente mencionadas, para que os dirigentes do Fed, ainda que dissimuladamente, hesitem em retomar altas de juros. Tais razões respeito aos riscos alimentados pela alta liquidez global e seu empoçamento por falta de demanda, promovida pelos persistentes, prolongados e, mesmo com a aplicação de juros negativos, até aqui pouco eficazes afrouxamentos monetários aplicados não só pelo próprio Fed, mas também pelo Banco Central Europeu (BCE) e o Banco do Japão (BoJ), além de outros das grandes economias maduras, como o Banco da Inglaterra (BoE).

Mesmo com juros negativos — já há mais de US$ 10 trilhões em títulos com essa característica em circulação —, os BCs não conseguem se livrar dos ativos que compraram com os afrouxamentos monetários. e se veem afogados em reservas livres que os bancos privados preferem manter paradas em seus cofres. Os ativos em poder dos quatro grandes BCs – Fed, BCE, Boj e Banco Popular da China (PBoC), para dar uma ideia do tamanho desse movimento, avançaram de US$ 6,5 trilhões, em 2008, para US$ 16,9 trilhões, em 2016, o que hoje equivale a um quarto do PIB global.

Os BCs do mundo desenvolvido também se veem às voltas com uma enxurrada de reservas livres, que os bancos preferem manter paradas em seus cofres. O exemplo mais emblemático dessa situação, que claramente configura o mais longo caso conhecido de armadilha da liquidez, é a explosão das reservas livres no Fed. Nos últimos dez anos, a partir de 2007, seu volume evoluiu de 0,01% do PIB americano para 14% do PIB. Esses recursos somam hoje um total superior a US$ 2,5 trilhões.

Ok, os juros americanos devem subir “na próxima reunião”. Mas a pergunta que permite manter uma prudente cautela em relação a essa possibilidade é a seguinte: se já está difícil fazer com que essa dinheirama volte para a economia, numa situação de juros negativos ou muito baixos, será que o Fed vai arriscar acumular mais reservas livres — e contribuir para tornar a recuperação econômica ainda mais lenta —, aumentando suas taxas antes de uma recuperação muito mais robusta e firme da economia do que a projetada para os próximos anos?