Retomada da economia deve ditar ritmo dos juros

José Paulo Kupfer

22 de fevereiro de 2017 | 19h24

O novo corte de 0,75 ponto na taxa básica de juros, decidido, por unanimidade, no início da noite desta quarta-feira, pelos diretores do Banco Central integrantes do Comitê de Política Monetária (Copom) deu-se como os analistas de mercado esperavam. Mas não como uma boa parte deles desejava. Agora a taxa Selic desceu a 12,25% ao ano e ficou a 2,75 ponto da previsão, registrada no próprio comunicado emitido logo após a decisão, segundo a qual a taxa básica encerrará 2017 em 9,5% anuais.

É possível que, a partir de agora, as estimativas para o ponto em que a taxa Selic se encontrará no fim do ano recuem para 8,5% ou mesmo 8%. Caso o recuo da Selic fique no intervalo entre 9,5% e 8%, o corte acumulado somará de 2,75 pontos a 4,25 pontos. Aposta-se hoje, no mercado financeiro, que a sucessão de cortes se estenderá até outubro.

Se isso for verdade — e se os sinais de recuperação da economia ainda não estiverem consolidados, no final do primeiro trimestre –, haveria espaço, na hipótese de corte mais intenso, para duas reduções de 1 ponto e outras três de 0,75, nas cinco reuniões do Copom até lá.

Considerando uma inflação em torno do centro da meta, a taxa real de juros recuaria, em fins de 2017, para algum valor entre 4% e 5%. Algo  incomum na experiência brasileira e mais próximo da de outras economias emergentes, embora ainda longe dos juros pouco acima de 1% ou até negativos das economias maduras.

Tal evolução dependerá da “extensão do ciclo de flexibilização monetária”, expressão contida no comunicado, que, de certa maneira, representou uma recaída no “coponês”— o idioma peculiar e meio enigmático que o Copom, sob a presidência de Ilan Goldfajn, prometeu abandonar e até aqui, de fato, quase não tem usado.

Em tradução livre, significa que a sucessão de cortes na taxa Selic deverá ir até a fronteira da “taxa natural” de juros da economia, aquela que marca o ponto em que os juros reais passam a ser neutros em relação à inflação. Difícil de ser demarcada, por não derivar de observação direta, essa taxa, no momento, andaria nas vizinhanças de 5%.

Além desse aspecto, o comunicado do Copom ressaltou a articulação dos movimentos da taxa Selic com a evolução da atividade econômica. Segundo o Copom,  o ritmo de retomada da atividade econômica é um dos principais elementos na determinação da extensão e profundidade do ciclo de cortes nos juros básicos. Cauteloso, o Copom vê sinais de recuperação gradual, mas não arrisca apostar em que passo essa retomada ocorrerá.

Dos fatores de riscos, para dificultar ou facilitar o processo de desinflação em curso, destacam-se, no lado negativo, “o alto grau de incerteza no cenário externo”— leia-se a repercussão das ações de Donald Trump e a reação do Federal Reserve na economia global — e, do lado positivo, não só diretamente a queda nos preços dos alimentos, mas seus efeitos favoráveis nas expectativas.

A mensagem do Copom, em resumo, é a de que os próximos movimentos das taxas básicas de juros dependeriam da evolução da atividade econômica.

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