Retomada hesitante

José Paulo Kupfer

29 de outubro de 2013 | 11h06

Depois de um período de fortes tensões e turbulências no mercado financeiro global, alimentado pela perspectiva do início da reversão do programa de estímulos monetários, nos Estados Unidos, a reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc, na sigla em inglês) desta quarta-feira já não provoca tanta excitação quanto as anteriores.

Com a indicação de Janet Yellen para a presidência do Federal Reserve, em substituição a Ben Bernanke, a partir de janeiro, as perspectivas de um adiamento da antes tão aguardada virada na política monetária americana para 2014 ganharam ampla maioria entre os economistas.

O perfil de Yellen, alinhada entre os “pombos” do Fed, reforçou a mensagem que a ambiguidade dos sinais de recuperação da economia dos Estados Unidos já estava transmitindo. Embora sejam evidentes as melhoras ante os indicadores dos primeiros anos da crise, não se pode dizer que a retomada já exibe fôlego de longo percurso.

Ben Bernanke havia estabelecido uma taxa de desemprego de 6,5% e um nível de expectativas de inflação por dois anos acima de 2% como senhas para reverter a política de afrouxamento monetário. No segundo trimestre deste ano, o presidente do Fed produziu um choque no mercado financeiro global ao insinuar que estes índices estavam a caminho e a hipótese de iniciar a reversão antes do fim do ano deveria começar a ser considerada.

Mesmo com as claras hesitações da economia americana, foi preciso que a reunião do Fed de setembro terminasse sem novidades para que os mercados se acalmassem e percebessem que os oráculos do “tapering” antecipado tinham sido apenas afoitos.

Agora, às vésperas do encontro de outubro e depois da paralisação parcial do governo, em razão de impasses políticos em relação ao orçamento fiscal – superados, diga-se, apenas temporariamente -, o debate, nos Estados Unidos, mudou de direção. Passou a girar em torno do que deveria ser feito para evitar a perpetuação de uma trajetória de baixo crescimento econômico e alta taxa de desemprego.

Muito mais do que otimismo com a perspectiva de retomada mais vigorosa do crescimento, ganha espaço o temor de que a economia americana possa vir a repetir a história já não tão recente da economia japonesa, que se arrasta há mais de duas décadas num ambiente de baixa inflação – ou mesmo deflação – e crescimento medíocre. Junto com esse temor, curiosamente, vem a ideia de que um pouco de inflação, neste momento, ajudaria a tirar a economia do marasmo em que parece atolada.

Reportagem do New York Times, publicada no sábado, trata do tema sob o título “Dentro e fora do Fed, muitos agora pensam que a inflação ajuda”. O jornalista Binyamin Appelbaum, da primeira linha dos repórteres de economia do jornal, menciona Kenneth Rogoff e a própria Janet Yellen entre os defensores da fórmula que faria ortodoxos arrancarem os cabelos, mesmo se forem carecas.

Rogoff, ex-FMI e agora em Harvard, chega a dizer que “uma inflação de 6% ao ano por alguns anos não seria de preocupar”. Segundo ele, o problema é semelhante ao de uma bola de golfe que caiu numa poça de areia. “É preciso bater mais forte para levá-la à grama e não ficar tocando de leve”, comparou.

Menos do que pela sugestão em si – que, é bom deixar bem claro, não faz sentido algum no caso da economia brasileira, por razões históricas e, mais ainda, na conjuntura atual -, o fato de que economistas-celebridades ousem receitar um pouco de inflação para colocar a economia no caminho do crescimento só expõe a percepção de que a retomada americana pode não estar tão à mão quanto se supunha. E que o famoso “tapering” pode demorar mais do que se imagina.

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