Retração explica saldo comercial

O primeiro saldo positivo da balança comercial no ano se deve a um recuo das importações mais forte do que a queda nas exportações - um quadro que deverá ser a tônica do setor externo em 2015

José Paulo Kupfer

02 de abril de 2015 | 11h16

O primeiro saldo comercial do ano, obtido em março e divulgado nesta quarta-feira pelo governo, ainda não se deve à desvalorização do real ante o dólar. A escalada da moeda americana, na verdade, ajudou a amenizar as perdas de receita com a queda nas cotações internacionais de commodities exportadas pelo Brasil.

Um exemplo eloquente dessa situação pode ser encontrado nas exportações de minério de ferro. O volume físico exportado no primeiro trimestre registrou aumento de mais de 100%, mas as cotações do produto caíram 50% e o resultado final foram receitas de exportação de ferro 45% menores. O mesmo ocorreu com o petróleo, cujas exportações aumentaram em quase 90%, nos três primeiros meses do ano, mas os preços recuaram cerca de 50%, resultado em contração de 6% no valor embarcado.

Março costuma ser um mês de superávit comercial porque marca o início dos embarques da safra de soja para o mercado internacional. O saldo deste ano, em março, que alcançou US$ 458 milhões, é o mais elevado desde março de 2012. No trimestre, porém, a balança comercial ainda acumula déficit de US$ 5,5 bilhões. A expectativa dos analistas é de reversão no déficit e o fechamento de 2015 com pequeno superávit.

Não se pode esquecer que, além da taxa de câmbio mais desvalorizada, o ritmo lento da atividade econômica costuma estimular as exportações e reduzir o ímpeto importador, contribuindo para a formação de superávits comerciais. Saldos comerciais, numa perspectiva histórica, costumar ficar superavitários em períodos de baixo crescimento. Mas isso não significa, necessariamente, que o resultado seja obtido com aumento nos volumes e nas receitas de exportação.

Em termos gerais, exportações e importações recuaram em março e no trimestre – um quadro que deve se consolidar ao longo do ano. O saldo positivo resultou de um recuo maior das importações. Em março, a média diária das exportações foi 16,8% menor do que a de março do ano passado, enquanto a média diária das importações, em comparação com o mesmo período, recuou 18,5%.

Os resultados da Pesquisa Industrial Mensal (PIM), também apresentados nesta quarta-feira, mostraram nova contração da produção, com ênfase no segmento automobilístico e em bens de capital. Sinal de que a taxa de câmbio mais desvalorizada ainda não impulsiona as vendas externas – até porque a inflação, ao aumentar custos, estreita eventuais ganhos competitivos. Por enquanto, portanto, é principalmente a retração econômica que explica a trajetória do comércio exterior brasileiro.