Retração se aprofunda, mas PIB embute elementos da recuperação

José Paulo Kupfer

31 de agosto de 2016 | 12h14

O recuo de 0,6% na variação do PIB, no segundo trimestre deste ano, em comparação com os três meses anteriores, apesar de aprofundar a queda da produção, reafirma a tendência de reversão da recessão em que se encontra a economia brasileira. O fundo do poço, a rigor, ainda não chegou, mas se as perspectivas para os próximos trimestres se confirmaram, ele está cada vez mais perto e será alcançado nos últimes três meses de 2016.

Depois de retroceder 0,4%, no primeiro trimestre, em relação ao anrterior, o PIB foi mais para o fundo entre abril e junho. Mas as quedas nos dois trimestres restantes do ano, caso as projeções se confirmem, serão gradualmente mais suaves até o reingresso no terreno positivo, nos primeiros três meses de 2017.

Já de posse dos números atualizados até o segundo trimestre, que dão passagem à essa avaliação de recuperação gradativa e sem grandes saltos, os analistas de conjuntura mantiveram suas previsões anteriores para o comportamento da economia em 2016 e 2017 — queda em algum ponto entre 3% e 3,5%, neste ano, e expansão no intervalo entre 1% e 1,5%, em 2017. Como, entre 2015 e 2016, a contração terá sido de pelo menos 7%, a atividade econômica só deverá retornar aos níveis de 2014 ao término de 2018.

As chances de que a atividade econômica, de retorno do fundo do poço, reencontre com mais rapidez crescimento mais robusto esbarram na dinâmica do consumo das famílias. Afetada pelo desemprego em alta e o volume do crédito em baixa, o principal componente do PIB, no lado da demanda, que responde por 60% do conjunto da produção de bens e serviços, ainda observou forte contração no segundo trimestre e deve demorar a se recuperar.

Com o consumo sem vigor — o que se revela também pelo fraco desempenho dos serviços, em que o comércio é componente relevante —, recaem sobre o investimento as expectativas de reversão do quadro de contração e de retomada dos negócios, neste e no próximo ano. Depois de dez trimestres, de fato, o investimento apresentou, no período abril/junho deste ano, um primeiro e ligeiro resultado positivo. Ainda em nível muito baixo — a taxa de investimento, no segundo trimestre, desceu para 16,8% do PIB –, pode ser impulsionado por privatizações e concessões de infraestrutura. Mas sua recuperação mais sistemática dependerá da combinação virtuosa de fatores diversos, a começar do início de um ciclo de cortes nas taxas de juros.

A mensagem a reter da dinâmica agora demonstrada pela economia parece ser a de que o pior da grande recessão iniciada em 2014 está realmente ficando para trás. Isso é visível quando se observam os indicadores acumulados, anuais e semestrais, todos mais negativos do que os atuais. Mais a probabilidade maior é de que o caminho de volta seja trilhado devagar e com ímpeto moderado.

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