Riobaldo e o caos aéreo

José Paulo Kupfer

20 de abril de 2010 | 11h06

Com cinzas ou sem cinzas do vulcão islandês de nome impronunciável, os voos, na Europa, vão sendo retomados. É muita perda econômica para não correr riscos adicionais no transporte aéreo e manter estritos os limites de segurança.

A contabilidade das perdas do maior apagão aéreo em tempos ditos de paz é um saco sem fundo. Não só as companhias aéreas foram atingidas, mas aeroportos, turismo, parte do comércio exterior, cartões de créditos e um mundo de etecéteras, sem falar no tumulto da vida pessoal e familiar para milhões de pessoas.

Começa-se a falar em falta de plano B, em estratégias de contingenciamento, ao mesmo tempo em que se constata, com certa surpresa, que as vias de escape – trens, navios, ônibus, automóveis – estão todas abarrotadas. Verifica-se, então, que, como alternativa de emergência aos aviões no chão, mesmo aceitando seus custos mais altos, as vias de escape apresentam eficiência perto de zero.

É fácil falar em plano B, mas praticamente impossível, no caso, até mesmo definir algum. Os custos de sua formulação – e nem se imagina o de sua execução –, quando o fato detonador é imprevisível e com probabilidade rara de ocorrer, tornam a tarefa inviável.

As saídas virtuais, as teleconferências, mesmo que logo se façam em 3D, são, por óbvio, parciais. Na era do capitalismo de massas, nem com o teletransporte da ficção científica esse nosso mundo, incomodamente real, conseguirá funcionar apenas na dimensão virtual. É nessas horas que temos a chance de constatar o quanto o sonho arrogante de controlar todas as incertezas é, na verdade, um pesadelo.

Minha modesta sugestão para um problema tão sem solução: ler ou reler “Grande Sertão: Veredas”. E escutar Riobaldo, quando o ex-jagunço prosador nos diz que o sertão está em toda parte e viver nele é negócio muito perigoso.

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