Riscos da freada

José Paulo Kupfer

31 de maio de 2010 | 16h30

Em uma semana, o IBGE divulgará o resultado das contas nacionais, no primeiro trimestre de 2010. É provável que os números apresentados reacendam os temores de que a economia brasileira, deixada solta, se encaminha para um desastre. Afinal, as previsões dos departamentos de economia dos bancos e das consultorias privadas são de uma expansão anualizada acima de 12% – a segunda mais alta do mundo, logo atrás da Índia, e acima da China (veja aqui, na reportagem de Leandro Modé, no Estado de S. Paulo desta segunda-feira, 31/05/2010).

No novo mundo econômico pós-crise bancária de 2008 e em plena crise das dívidas soberanas na Europa, circula, com ares hegemônicos, a ideia de que crescer pode ser um problema – e crescer muito, uma tragédia. Para evitar problemas e tragédias do crescimento, a receita aviada tem sido a da contração das políticas monetária e fiscal.  

Diante do quadro “assustador” de crescimento e das incertezas do ambiente econômico global, economistas-chefes e consultorias já estão emitindo relatórios com análises bem pessimistas para a evolução de economia brasileira, nos próximos 18 meses. O curioso é que essas estimativas sombrias derivam do tranco monetário e fiscal que preconizam.

Já não são poucos, entre as pitonisas do mercado, os que, em razão de diversas restrições, internas e externas, vislumbram um crescimento, em 2011, abaixo de 4,5% que ainda é a variação indicada pela mediana das projeções dos participantes da pesquisa semanal Focus, do Banco Central. Diante do quadro que pintam, coerentemente, recomendam aos clientes cautela com o endividamento e a alavancagem de seus negócios.

Esse é o risco de políticas de contração voluntária do crescimento. O benemérito intuito de evitar um voo de galinha pode desandar numa coordenação de expectativas desfavorável aos investimentos – em ampliação, renovação ou inovação do parque produtivo. Se o freio à atividade econômica aquecida resultar em estagnação ou redução dos investimentos, o produto potencial também se contrairá, estreitando a margem de manobra da política econômica.

O perigo, então, de que se instale um círculo vicioso não é desprezível. A economia não pode crescer porque é limitada pelo produto potencial e o crescimento do produto potencial é limitado pelo não crescimento da economia. É assim que se criam espaços para as nossas conhecidas décadas perdidas.

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