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Riscos da gestão “empurra-com-a-barriga”

José Paulo Kupfer

24 de fevereiro de 2011 | 17h31

Enquanto a situação da economia internacional segue envolta em incertezas – embora a tendência, do ponto de vista da economia, não permita nem um pouco de otimismo – melhor focar a atenção em alguma coisa certa: a ineficácia do método “empurra-com-a barriga”, que está sendo adotado pelo governo na condução da política fiscal, conforme revela o Estadão, na edição desta quinta-feira.

Postergar liberações de recursos, recorrer à administração na boca do caixa e, enfim, fazer corpo mole deliberado na execução orçamentária ou nos cronogramas dos investimentos, aproveitando que eles, se for por conta própria, já andam a passo de cágado, pode ter efeito positivo nas estatísticas fiscais. Mas o impacto na economia real tende a ser pior do que simplesmente desistir dos cortes.

Não se pode deixar de observar que, nem mesmo o consistente histórico de ineficácias retira dos governantes o encanto dos contingenciamentos e empurrações como método de administração pública. Os exemplos são abundantes e os mais antigos devem se lembrar de um dos mais curiosos, praticado pelo então ministro Antonio Delfim Netto, nos tempos do “milagre econômico”.

No fim do ano, a partir dos primeiros dias de dezembro, Delfim mandar reter, na barra dos portos, até a virada do ano, os navios com produtos importados. Com a manobra, as estatísticas de importação só seriam alteradas já no exercício seguinte, aliviando contas externas do ano prestes a se encerrar.

O método “empurra-com-a-barriga” fertiliza o terreno para uma colheita de ineficiências variadas. Se, normalmente, a ação dos lobbies, que faz parte do cotidiano ambiental do caixa do Tesouro, já inferniza a condução da política fiscal, imagine-se quando o caixa fica cercado pelos cães de guarda das postergações fiscais.

Aumenta muito a probabilidade de que saia dinheiro para onde não deve e não abra a torneira do que deveria ser irrigado. Sendo que, no fim de tudo, as pressões continuam ali do mesmo jeito – aliás, possivelmente mais fortes. Empurrar com a barriga, na verdade, não enxuga coisa alguma – nem gelo.

Ao evitar decidir prioridades – e não fazer os cortes anunciados como necessários –, a presidente Dilma corre não só o risco de armar bombas de efeito retardado para ela mesma. Corre também o risco de arranhar a própria imagem, rápida e surpreendentemente agora quase consensual, de gestora eficiente.

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