Rotas divergentes

José Paulo Kupfer

06 de setembro de 2013 | 11h43

A ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada nesta quinta-feira pelo Banco Central, parece ter sido suficientemente clara para transmitir a mensagem de que a taxa básica de juros continuará a subir em 2013. Mas não o bastante para permitir a formação de consenso em relação ao tamanho da alta e sua extensão.

Entre os tradutores juramentados do “coponês” – o idioma cifrado com o qual o BC se comunica com o mercado –, depois da ata, não restou qualquer dúvida de que o Copom elevará a taxa Selic para 9,5% ao ano, na reunião de outubro. Mas o que decidirá no encontro de fins de novembro, o último do ano, é motivo de divergência.

Depois da ata, pareceu mais claro que o atual ciclo de elevação nos juros básicos estaria se aproximando do término. Para uma pequena maioria, o teto final ficará em 9,75%, com um último aumento de 0,25 ponto e um relativamente longo período de manutenção da taxa nessa altura, no decorrer de 2014. Um grupo grande, porém, acredita que a taxa Selic será levada a fechar o ano em 10%, com mais uma alta de 0,5 ponto, no fechamento do calendário do Copom em 2013.

Além de parecer insuficiente para fazer as expectativas em relação à trajetória dos juros básicos convergirem com mais intensidade, a ata da reunião de agosto também parece um tanto fora de sintonia com as atuais percepções do mercado, em relação ao comportamento da economia. Em alguns parágrafos, sobretudo nos que avaliam a situação fiscal e o repasse das atuais desvalorizações cambiais aos preços, o Copom se mostra menos pessimista do que os analistas de mercado.

Apesar de registrar desconforto com os níveis de inflação e não acenar com sua convergência para o centro da meta “no horizonte relevante” – ou seja, pelo menos até 2015 –, o Copom, no seu estilo tortuoso, dá a entender que as doses adicionais previstas para os juros básicos serão suficientes para dissolver os impactos mais permanentes da desvalorização cambial sobre a inflação. Há, no mercado, muitas dúvidas se essa visão não é benigna demais.

Mais incômodo ainda causou o trecho da ata em que o Copom, também levando em conta o “horizonte relevante”, considera terem sido criadas condições para que “o balanço do setor público se desloque para a zona de neutralidade”. A alteração na percepção do Copom em relação à política fiscal do governo, classificada nas atas das reuniões anteriores como expansionista, é um aceno para moderação na alta dos juros e discrepa da visão dos analistas de mercado.

Ainda que sem a intensidade das divergências que marcaram o último ciclo de cortes nos juros básicos, entre agosto de 2011 e abril de 2013, a ata da reunião de agosto do Copom pode abrir uma nova temporada de descrença na autonomia do Banco Central para levar a taxa básica de juros até o ponto necessário para trazer a inflação para o centro da meta, em prazo aceitável.

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