finanças

E-Investidor: "Você não pode ser refém do seu salário, emprego ou empresa", diz Carol Paiffer

Sacolejos no câmbio: não há um culpado só nessa história

José Paulo Kupfer

19 de novembro de 2009 | 18h10

Não seria necessário conhecer detalhes dos momentos mais dramáticos da operação no mercado de câmbio, durante o tenso limiar da crise econômica global, no último trimestre do ano passado, recentemente oferecidos pelo jornal “Valor”, para entender que “harmonia” não é exatamente a melhor palavra para expressar as relações entre o Banco Central e o ministério da Fazenda. Basta observar o ativismo da Fazenda, na tentativa de conter a valorização do real, para constatar que a melhor palavra para refletir esse relacionamento é “divergência”.

Duas intervenções sucessivas no mercado, com a aplicação de IOF, primeiro nos capitais ingressantes, exceto investimentos diretos, e depois nos ADRs emitidos em bolsas estrangeiras, mostram a disposição da Fazenda em impedir – ou pelo menos suavizar –, com as armas de que dispõe, um derretimento da taxa do dólar. A mensagem implícita na ação – e no discurso – do ministro Guido Mantega é a de que ele lançará mão de outras armas se a escalada de valorização do real prosseguir.

Na famosa reportagem do ‘Valor”,  dos jornalistas Cristiano Romero e Alex Ribeiro, que ajudou a acelerar a saída do então diretor de Política Monetária do BC Mário Torós, o executivo passou a versão de que o BC, com ele à frente, salvaram o Pais de um ataque especulativo como os que, não faz tanto tempo assim, desestabilizavam a economia brasileira. Nessa versão, vamos dar nome aos bois, Mantega aparece como um quinta-coluna, passando ao mercado mensagens desestabilizadoras.

 O fato é que, se o BC foi suficientemente habilidoso para derrotar os só agora revelados especuladores dos primeiros tempos da crise, tem sido, segundo seus críticos,  pouco eficiente no esforço de evitar a volatilidade do real e sua firme valorização.  Dá até para desconfiar que a ineficiência do BC tenha origem numa descrença de seus diretores nos poderes de eventuais intervenções no mercado cambial. O que não impediu, diga-se, uma saraivada de críticas à ação (ou falta de) do BC no câmbio, resumidas na expressão do economista Luiz Gonzaga Belluzzo, segundo o qual o BC “está dando milho aos bodes”.

Na queda-de-braço que se estabeleceu em torno da política cambial, são muitos os que adotam essa posição meio fatalista diante da valorização do real. Acham que o dinheiro externo vem porque os fundamentos da economia estão bons e não há como resistir à onda. Mais do que isso: não seria o caso de resistir até porque o Brasil vai precisar de muitos investimentos daqui para a frente e cortar o fluxo externo, na hora da necessidade, não faz muito sentido.

 Há, de todo modo, alguma coisa esquisita na política cambial. Em regimes de câmbio flutuante, como o que se diz ser praticado no Brasil, a acumulação de reservas em moedas internacionais e, sobretudo, a acumulação de imensas reservas, pode ser vista como um esoterismo. Acumular reservas é característica de mercados cambiais em regime de câmbio fixo – como é o caso da China.

 Na teoria do câmbio flutuante, exatamente porque ele flutua, os ajustes externos são automáticos. Os vasos comunicantes com as taxas básicas de juros são os que fazem o serviço.

 No Brasil, mostra a experiência de uma década com o novo regime de câmbio flutuante, seria mais correto dizer não que o câmbio flutua, mas que o câmbio boia. O câmbio, sim, flutua, como gostam de dizer as autoridades econômicas sempre que o mercado cambial enfrenta turbulências, mas sofre intervenções de todos os lados. Isso se deve, primeiramente, ao simples fato de que, quando a onça bebe água no mercado cambial, apenas um protagonista aparece no palco, para comprar ou vender dólares, na mão de direção inversa a do resto do mercado: o Banco Central.

Para encurtar a lenga-lenga, os IOFs do ministro Mantega são uma contraparte tímida de uma certa passividade do BC na defesa de um real menos valorizado e menos volátil. A falta de sintonia entre os condutores da política econômica é mais do que um prenúncio de que as intervenções no câmbio podem aumentar, ao mesmo tempo em que a eficiência das medidas tenderia a diminuir. Não há um culpado só nessa história.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: