Salvos pela simplicidade

José Paulo Kupfer

20 de março de 2008 | 08h13

Por Luis Eduardo Assis*

Há uma evidente desconexão entre as perspectivas ainda otimistas que prevalecem na economia brasileira e a visão soturna que os analistas internacionais manifestam a respeito do cenário mundial. Para os patriotas mais entusiasmados, isto pode significar que o Brasil, finalmente, fez prevalecer a força dos seus fundamentos econômicos, de tal sorte a ficar imune às implicações do que parece ser a mais grave crise financeira dos últimos tempos. Há até mesmo quem se impressione com as perspectivas justificadamente favoráveis do crédito imobiliário brasileiro em 2008, quando em vários outros países este produto passou a ser o centro das preocupações.

É possível perceber, no entanto, que, pelo menos no que se refere ao seu aspecto financeiro, não haveria mesmo nenhum motivo para se esperar uma contaminação. A crise que castiga os mercados financeiros desenvolvidos em nada se assemelha ao que ocorre no Brasil. Isto por duas razões. Em primeiro lugar, o imbróglio que se vive hoje na Europa e nos Estados Unidos chega no rastro de uma valorização – especulativa, por todos os títulos – dos preços do imóveis, crescimento este fomentado por uma forte expansão no crédito imobiliário, sua causa e conseqüência. Entre 2004 e 2006, o preço médio dos imóveis residenciais nos Estados Unidos subiu mais de 25%. Não por acaso, isto ocorreu logo após uma abrupta redução dos juros. A taxa básica do Fed caiu de 6,5% ao ano, em dezembro de 2000, para 1,75 % um ano depois. Continuou a cair e manteve-se em apenas 1% ao ano entre maio de 2003 e junho de 2004. Foi a valorização quase incessante dos imóveis, na seqüência de juros tão baixos, que induziu a uma crescente leniência nos critérios de avaliação do risco de crédito dos mutuários.

Como se sabe, o mercado financeiro tem uma vocação incorrigível para adotar um “comportamento de manada”, já que a penalidade para errar sozinho é muito maior do que a recompensa por acertar quando todos erram. Melhor, portanto, errar junto. “Enquanto houver música continuaremos dançando”, disse um famoso ex-banqueiro, candidamente. Nestes movimentos especulativos, ganha mais quem chega antes e dobra a aposta. Não vale a pena tentar acertar apostando que todos estão errados.

Como o resultado de uma seleção de risco de crédito mais generosa, e o acesso de milhões de novos mutuários ao mercado de imóveis, o preço das garantias se eleva, o que, em seguida, implica a redução do próprio risco de crédito, realimentando todo o processo. A roda gira cada vez mais rápida, o mercado se desdobra em produtos mais e mais sofisticados, ao mesmo tempo em que se reduz a importância dos critérios usuais para se aferir o risco de inadimplência – pois, afinal, os devedores ficam mais ricos. É bom enquanto dura.

Nada remotamente parecido aconteceu no Brasil. Muitas das características que foram introduzidas na década de 60 permanecem ainda hoje vigentes. Isto dificulta, por exemplo, a securitização dos créditos, ingrediente essencial para se explicar a alavancagem que tornou esta crise especialmente penosa. Também o próprio financiamento imobiliário entre nós é menos importante, representando cerca de 2% do PIB, contra mais de 50% nos EUA e Inglaterra e cerca de 40% nos países da Europa continental. Enquanto no exterior, há muitos anos, as instituições se especializaram nas várias fases que compõem uma relação comercial que pode se estender por mais de 30 anos, no mercado brasileiro quem origina o empréstimo está, na prática, fadado a carregá-lo até o vencimento.

Estamos ainda longe da sofisticação dos mercados mais desenvolvidos, o que paradoxalmente nos protege. Padecemos de dificuldades mais primárias. Da mesma forma, não se tem registro no Brasil de um movimento especulativo de valorização do preço dos imóveis comparável ao que aconteceu em outros países. Nesse aspecto, nossa precariedade é tamanha que não temos nem mesmo um número índice que afira com credibilidade o comportamento dos preços deste setor – para não mencionar produtos financeiros derivados deste índice.

Quanto subiu o preço dos imóveis no Brasil? Difícil saber. A evidência anedótica é que os preços dos imóveis foram sufocados pelos juros altos – precisamente a situação inversa dos países que enfrentam hoje a crise. O mercado de crédito imobiliário simplesmente não se desenvolveu o bastante para sofrer uma contaminação. Se o esquerdismo era a doença infantil do comunismo, para usar uma citação fora de moda, a simplicidade é a doença infantil do mercado imobiliário brasileiro.

Em segundo lugar, o Brasil é diferente porque sob muitos aspectos continua sendo uma economia fechada. A idéia de que a globalização é um processo avassalador que derruba as fronteiras precisa ser qualificada. No nosso caso, o mercado financeiro à disposição do investidor brasileiro é ainda um mercado essencialmente local. Os bancos e os investidores brasileiros não foram afetados pela desvalorização dos ativos financeiros lastreados em hipotecas, nem perderam o sono com complexos modelos de precificação de ativos subitamente ilíquidos, pela boa e simples razão de que, na prática, a compra destes ativos é restringida por uma legislação que tem ainda a marca dos tempos em que a escassez de reservas era a preocupação essencial.

O dinheiro brasileiro fala português. Isto força um desenvolvimento autóctone, necessariamente encruado, já que os canais de comunicação que dariam acesso a produtos financeiros sofisticados estão bloqueados. Tome-se a enorme preocupação que cerca o futuro dos produtos derivativos de crédito, por exemplo, em especial o problema que cerca as seguradoras “monolines”. Com um capital de apenas US$ 25 bilhões, elas tomaram um risco de US$ 2,4 trilhões, o equivalente a quase cinco vezes o total de operações de crédito de todo o sistema financeiro brasileiro. Deste total, cerca de US$ 1 trilhão está associado ao mercado de subprime por meio de operações estruturadas (basicamente CDOs) que estão fora do balanço dos bancos. Não há sombra, nem nas nossas diminutas proporções, de produto equivalente no Brasil. Se não há produto, e se a ele não temos acesso, não há crise.

Se isto significa que o Brasil não está na linha de frente da crise, não chega a garantir que não seremos afetados. Uma recessão na economia americana, cada dia mais certa, terá implicações sobre o crescimento brasileiro, não só pelo menor dinamismo das exportações, mas principalmente pelo possível efeito sobre a percepção de risco dos países emergentes e, consequentemente, sobre a taxa de câmbio, que pode induzir o Banco Central a uma postura mais conservadora. Mas nada que altere o cenário ainda positivo. A falta de sofisticação do crédito imobiliário e o isolamento do mercado financeiro – ambos herança dos tempos de inflação crônica – nos livraram dos primeiros sintomas da crise.

(*)Luis Eduardo Assis é executivo-sênior da HSBC Holdings (Londres), foi diretor de política monetária do Bacen e professor de economia da PUC-SP e FGV-SP.

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