Saudades da política cambial café-com-leite

José Paulo Kupfer

25 de outubro de 2010 | 16h12

Reza a cartilha das boas práticas no mercado financeiro que os departamentos de pesquisa e análise econômica de bancos e instituições financeiras sejam separados das áreas de operação. Pode até haver uma separação formal – “muralha da China”, no jargão do mercado –, mas na prática, a teoria é outra. Não há muralha capaz de barrar contaminações mentais.

Só isso explica as queixas e advertências dos chamados economistas de mercado, depois que o governo começou a atuar na defesa da taxa de câmbio. Eles andam contrariados com o “desmonte” da política cambial até recentemente praticada, como declarou Tony Volpon, chefe de pesquisas para mercados emergentes da Nomura Securities, em reportagem dos colegas Fabio Graner e Adriana Fernandes, no Estadão desta segunda-feira.

Segundo Volpon, o Brasil está saindo de um sistema de câmbio flutuante “sujo”, mas transparente, para um regime mais de câmbio administrado. O economista lamenta que, nessa passagem, segundo sua avaliação, o governo está deixando de praticar uma política previsível.

Previsível? Desde quando uma política cambial tem de ser previsível? Política cambial previsível só é boa para quem está no jogo para tosquiar o carneiro.

O governo, até recentemente, fez, de fato, política cambial café-com-leite. Enxugava os excessos de dólares com leilões de compra de divisas, com dia e hora marcados. Acumulou reservas, é certo, mas essa atuação previsível colaborou para atrair mais e mais capitais especulativos – aqueles que procuram taxas atraentes e, além disso, compondo o melhor dos mundos, previsibilidade. A política previsível resultou numa acumulação de reservas que já passou do ponto.

De uns tempos para cá, porém, foram acionados outros mecanismos. Começou com mais IOF na renda fixa e o fechamento de escapes no mercado de ações e de futuros. Já abriu o leque para outras aplicações em portfólio e em futuros. De previsível na política cambial, agora, só os sinais de que, se precisar, virá mais chumbo.

 Trocou o café-com-leite por um pouco mais de coerência. Depois da mudança, até aqui, felizmente, não se vê mais o Banco Central puxando para cá e a Fazenda esticando para lá no câmbio. BC e Fazenda têm operado em conjunto, sem queimar de uma vez todo o arsenal à disposição e. enfim, sem aviso prévio do momento em que seriam colocadas em campo.

Isso aumenta os custos de transação no mercado cambial e encarece as operações de hedge, até mesmo para importadores, exportadores e investidores em atividades produtivas, como advertem os reclamantes? Sem dúvida. E, além disso, como também apontam os queixosos, pode vir a elevar os riscos de redução dos fluxos de capitais, numa quadra em que os déficits em contas correntes tendem a crescer.

Contudo, desde que se tenha consciência de que esses movimentos são apenas para mitigar um problema à espera de soluções estruturais, uma ação mais contundente no mercado cambial tem tudo, no momento, para produzir mais benefícios do que custos. Só os tosquiadores de carneiros podem sentir saudades daquela política cambial tão previsível.

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