Selic em conta-gotas

José Paulo Kupfer

15 de março de 2013 | 12h11

No lacônico comunicado expedido logo após o encerramento da reunião do Copom, na semana passada, o Banco Central já deixara supor que a estabilidade dos juros básicos havia subido no telhado e que um novo ciclo de altas se avizinhava. Na ata da reunião, divulgada nesta quinta-feira, as motivações para esse movimento ganharam detalhamento e reforço.

Essas motivações derivam, de um lado, da elevação, admitida pelo BC, não só dos níveis de inflação, para 2013 e 2014, mas também das preocupações com a trajetória adversa e disseminada dos preços. Raras vezes as atas foram tão explícitas no relato das preocupações do BC com a trajetória da inflação.

De outro lado, a ata do Copom registra que a economia dá sinais de recuperação. Essa constatação foi reforçada nesta sexta-feira com a divulgação do IBC-Br de janeiro – indicador mensal do ritmo de atividade econômica, calculado pelo próprio Banco Central. O IBC-Br de janeiro mostrou um avanço de 1,29% sobre dezembro e de 3,84% em relação a janeiro do ano passado.

A preocupação com a inflação aparece em várias partes do documento até culminar com a sumarização do parágrafo 28. Nele, o BC considera, pela primeira vez, que as pressões inflacionárias podem não ser temporárias, refletindo uma “eventual” acomodação em patamar mais elevado.

Uma palavra, no entanto, chamou especialmente a atenção dos tradutores juramentados do “coponês” – o charadístico idioma das atas do Copom. Ela está inserida no final do mesmo parágrafo 28 da ata, talvez o mais importante dos 76 que a compõem. Essa palavra é “cautela”, com a qual o BC sugere que a política monetária deve ser conduzir, apesar das evidências das pressões inflacionárias, devido a incertezas nos ambientes externo e interno.

A tradução dessa ressalva, para um grupo grande de versados em “coponês”, é que o novo ciclo de alta na taxa básica não terá início na reunião do Copom de abril. Além de ficar para maio, caso não ocorram alívios mais fortes nas altas de preços até lá – o que é considerado muito improvável –, a “cautela” da ata indicaria que as elevações poderiam ser realizadas a conta-gotas, em doses de 0,25 ponto por vez, levando a taxa a 8,25% ou 8,5% até o fim do ano.

Com a economia evoluindo um pouco melhor, crescem as chances de que o BC concentre mais sua atenção na inflação. Fica só faltando saber quando o Copom vai dar acionar o botão de elevação da taxa Selic. O Relatório de Inflação, previsto para a última semana de março, ajudará a dirimir essas dúvidas.