Sem boas escolhas

José Paulo Kupfer

15 de outubro de 2013 | 08h29

Faltam menos de 48 horas para que o atual teto da dívida pública americana seja alcançado sem que até o fim da tarde de ontem democratas e republicanos tenham alcançado um acordo para evitar o início de algum tipo de calote do governo de Washington. Difícil imaginar que nada será feito até quinta-feira e a pressão na direção da aceitação de um acordo pela ortodoxia republicana, que tem encurralado o presidente Barack Obama também no caso do Orçamento para o novo ano fiscal e paralisado parte das atividades governamentais, aumentou muito nos últimos dias.

Também a história recente dos impasses em que o Congresso americano se envolveu ajuda a prever que, na última hora, haverá alguma regularização, ainda que parcial e temporária, do funcionamento da máquina de governo. É nisso que os mercados financeiros estão se fiando para se manter operando dentro de limites no chamado “terreno positivo”.

Com o passar do tempo e a extensão do período de paralisação do governo americano, que já avança por três semanas, aumentou a possibilidade de que, pelo menos no caso do Orçamento, um acordo possa demorar. E, no fim das contas, na medida em que as horas avançam sem uma solução, crescem também as chances de que a obstrução do grupo republicano radical dificulte a liberação de recursos para fazer frente aos vencimentos mais imediatos de títulos públicos.

Ocorre que, mesmo que seja encontrada alguma solução na prorrogação do segundo tempo do jogo, não será mais possível evitar conseqüências danosas à recuperação da economia americana. Já existem projeções de que a paralisação do governo nas últimas semanas determinará um recuo de 1,5 ponto a 1,75 ponto no crescimento da economia americana em 2013, fazendo-a pelo menos encolher para as vizinhanças de 1%,

No caso da dívida pública, mesmo com a expectativa de que se encontre alguma solução, as preocupações ganharam corpo a partir do fim de semana. Ficou mais nítido que, se um acordo for feito, ele será limitado, tanto no tempo quanto no volume de recursos colocados à disposição do governo.

Talvez seja exagerado projetar um clima de “ruptura global”, como mencionou a diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, no fim de semana, no encerramento da reunião conjunta do Fundo com o Banco Mundial, em Washington, na qual o tema de possível default americano acabou atropelando a prevista agenda de discussão dos caminhos da recuperação mundial. Mas, como argumentou o economista e Prêmio Nobel Paul Krugman, quaisquer que sejam as “saídas” do impasse, agora nenhuma delas oferece escolhas boas. Podem evitar crises financeiras imediatas, mas não o efeito em cascata da redução do ritmo de crescimento, com conseqüente encolhimento da arrecadação, em combinação com uma muita limitada capacidade de compensar a perda de receita com a ampliação da dívida pública.

Mesmo que não aborte inteiramente a recuperação que vinha se desenhando na economia americana, o impasse fiscal adiou para bem mais longe qualquer plano de iniciar a reversão do programa de estímulos monetários do Federal Reserve. Isso significa menor pressão sobre os mercados cambiais globais e uma trégua mais prolongada, nesse campo, principalmente nos mercados emergentes.

Além disso, ainda que acabe não acontecendo uma reclassificação da dívida americana, como ocorrido em 2011, mesmo quando, na hora “H” um default foi evitado, é bem possível que esse agora esperado alívio ganhe o reforço de uma revoada de recursos para os demais mercados financeiros. Nas reviravoltas pelas quais a economia global vem passando nos últimos anos, seria prudente que as grandes economias emergentes, como a brasileira, se precavessem para os distúrbios – alguns já conhecidos – que uma até bem pouco inimaginável nova “abundância” poderia provocar.

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