Sem folga para os juros

Dúvidas sobre o ajuste fiscal prometido pelo governo e pressão do dólar sobre a inflação levam Copom a prolongar o ciclo de alta.

José Paulo Kupfer

05 de março de 2015 | 18h20

Se ainda estivéssemos entre fins de janeiro e logo depois do carnaval, em meados de fevereiro, a decisão de ontem do Comitê de Politica Monetária (Copom) até poderia ser encarada com alguma surpresa. Naquele tempo, os analistas estavam mais divididos entre uma alta de 0,25 ponto porcentual ou de 0,5 ponto, em março. Mas, com números e projeções econômicas cada vez piores e uma escalada nas turbulências políticas, a alta de 0,5 ponto na taxa básica de juros já há alguns dias era a aposta preferencial. 

Com a opção pelo ajuste fiscal, adotada pela presidente Dilma Rousseff no início do seu segundo mandato, imaginou-se que, apesar da necessidade de um forte desrepresamento de preços, o que traria inevitáveis pressões inflacionárias, a política monetária poderia ser menos exigida. Mas as dúvidas em relação à capacidade de o governo entregar o superávit primário prometido — seja por uma suposta falta de convicção da presidente com os benefícios da austeridade, seja por resistências políticas da própria base aliada no Congresso — nunca deixaram de estar presentes.

Assim, aos poucos, a ideia de que o Banco Central poderia encerrar o atual e já longo ciclo de alta da taxa Selic com uma última elevação de 0,25 ponto em março foi ficando para trás. Mesmo com a trajetória da economia apontando para um período de recessão mais fundo e mais longo, os juros, na avaliação da maioria, ainda teriam de operar, como a política fiscal, na direção contracionista.

A escalada da taxa de câmbio, que já bate em R$ 3 por dólar e registra uma desvalorização de quase 10% desde o início do ano, também contribuiu para fazer as apostas dos analistas convergirem para a alta afinal definida pelo Copom. Diante das pressões inflacionárias existentes, que jogam todas as projeções da taxa acumulada em 12 meses, ao longo do ano, para cima do teto da meta de inflação, um maior aperto nos juros era praticamente inevitável, ainda que a retração da economia possa reduzir o ritmo e o grau de contaminação dos preços.

Depois da decisão de ontem, um grupo considerável de analistas passou a considerar que o fim do atual ciclo se estenderá até fins de abril, com uma elevação de 0,25 ponto e a taxa básica estacionada em 13% ao ano. Os mais crentes no êxito do ajuste fiscal já estão prevendo que os juros poderão recuar, em 2016, para 12% ao ano. Alguma devolução desse tipo também poderá ganhar espaço se o nível de contração da atividade econômica for fundo demais.

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