Significados de Pittsburgh

José Paulo Kupfer

25 de setembro de 2009 | 17h56

Observado com os olhos do presente, o encontro do G-20 que reuniu chefes de Estado e de governo, nestas quinta e sexta-feira, em Pittsburgh, EUA, poderia ser visto apenas como mais um passo nos esforços coordenados globais para evitar um agravamento da crise mundial e mais um minueto, sem maiores resultados práticos, na direção da reestruturação do sistema financeiro global.

De uma perspectiva histórica, porém, a reunião de Pittsburgh deixa em aberto especulações mais ambiciosas. Daqui a algumas décadas, quem sabe a reunião do G-20 em Pittsburgh não venha a ser lembrada como um dos eventos preliminares de uma nova ordem econômica mundial – caracterizada por um multilateralismo mais abrangente e concreto, inclusive com substituição da moeda internacional de reserva.

A decisão de transformar o G-20 em principal protagonista das mudanças na base institucional da economia global, em substituição ao G-8, capitaneada pelo presidente americano Barack Obama, é um sinal promissor, ainda que preliminar, de que essa mudança, de resto uma imposição da realidade econômica pós-crise, começa a ganhar contornos reais.

Formado pelas grandes potências econômicas tradicionais, mais a Rússia, o G-8, a partir de agora, tenderá a ser apenas o pretexto para jantares de confraternização dos grandes líderes, como classificou o jornal The New York Time. Ao G-20, o novo protagonista, que reúne os países ricos e as maiores economias emergentes, caberá definir os rumos da economia global, bem como reestruturar e monitorar os sistemas e as instituições que a fazem funcionar.

A discussão sobre uma nova divisão nas cotas de cada país no sistema FMI/Banco Mundial, um dos pontos centrais da agenda de Pittsburgh, dá sustentação ao cenário acima imaginado. O início parece tímido – o debate se dá em torno da transferência de 5% da cotas de países europeus sobre-representados para emergentes sub-representados –, mas, de qualquer forma, é um início.

Ao se render à ascensão dos grandes emergentes no palco das decisões, as potências tradicionais dão mostra de um salutar pragmatismo. O mundo já vinha apontando para mudanças nos eixos do poder econômico e a crise só fez tornar mais nítido – e inescapável – o novo cenário.

Daqui até a consolidação de uma nova ordem econômica multilateral – e de um novo mecanismo de reserva de valor – muita água, é claro, ainda vai passar pelas pontes sobre o rio Monongahela, em Pittsburgh. Mas esse é um movimento que parece não ter volta.

Mais dia, menos dia, os líderes do G-20 concluirão a nova arquitetura que agora começam a desenhar. Quem sabe o ato solene não tenha como cenário uma cidadezinha turística perdida num parque florestal, como a estação de esqui de Bretton Woods, na qual, há quase sete décadas, o mundo pós-guerra deu vida institucional ao sistema econômico mundial que sobreviveu até hoje.

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