Sinergia social

José Paulo Kupfer

25 de setembro de 2012 | 09h38

Falou-se bastante dos resultados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), versão 2011, quando da sua divulgação, na semana passada. Mas sobre os assuntos captados na pesquisa periódica – e que agora vai se tornar contínua – nunca se fala o bastante. Afinal, a Pnad faz um retrato da evolução social do País, que permite articular as ações de política econômica com seus impactos nas condições de vida da população. Não há, convenhamos, objetivo mais nobre e relevante para políticas econômicas do que a melhoria da qualidade de vida e do bem-estar nas faixas sociais mais necessitadas.

É nesse aspecto que a Pnad 2011 revela um quadro de esperança. O copo com água pela metade da evolução social brasileira começa a aparecer meio cheio. Ninguém pode negar que, em diversos e importantes aspectos – casos da educação e do saneamento básico, o copo ainda se apresenta meio vazio. Mas, também é inegável que, mesmo em meio a uma crise global de grandes proporções, um número significativo de indicadores sociais mostra avanços.

Claro que ainda é preciso progredir muito – os números relativos mais positivos escondem massas de brasileiros marginalizados. De todo modo, são alentadores os sinais de que o Brasil, ao longo das últimas duas décadas, desenvolveu uma tecnologia sólida para progredir nos indicadores sociais – inclusive em épocas de crise econômica e baixo crescimento.

Essa é a conclusão, com outras palavras, de especialistas como o novo presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Marcelo Cortes Neri. Egresso da chefia do Centro de Políticas Sociais (CPS), da Fundação Getúlio Vargas, do Rio de Janeiro (FGV-RJ), Neri destaca dois aspectos na Pnad 2011. O primeiro é o fato inédito de que já são dez anos consecutivos de recuo na desigualdade de renda. O outro é que o ritmo de queda, nos últimos dois anos, acelerou em período de crise, contrariando, segundo ele, o que seria esperado por nove entre dez economistas.

“O Brasil que prospera mais é o Brasil pobre, o lado Índia da Belíndia”, constata Neri, lembrando a imagem criada pelo economista Edmar Bacha, nos anos 70, para retratar o então abismo distributivo que caracterizava a sociedade brasileira. “O ritmo de crescimento da renda da metade mais pobre da população é cinco vezes mais rápido do que a dos 10% mais ricos”.

Para Neri, a aplicação persistente de um conjunto de políticas bem dirigidas influencia as decisões das famílias e essa combinação produz uma sinergia que leva a resultados melhores do que os previstos, quando se tenta antecipar apenas o impacto direto das medidas. Segundo o economista, é por isso que, como se vê nesta Pnad, o progresso social está sendo maior do que o das contas nacionais, que medem a evolução do PIB. “Renda, mercado de trabalho e redução das desigualdades estão oferecendo uma sequência inédita de progressos, com o detalhe de que melhoram em desalinho com o que se observa no resto do mundo”, diz Neri.

O economista considera que essa trajetória favorável parece ter adquirido um caráter sustentável. Neri revela que dados de 2012, que estão sendo coletados e organizados pelo Ipea, apontam para uma continuidade na melhoria dos indicadores sociais, apesar da persistência da crise europeia e de dois anos de baixo crescimento econômico no Brasil. “As pesquisas mostram que este ano continuará sendo, no sentido positivo, mais do mesmo que já vem ocorrendo há dez anos”, adianta ele.

São muitas as hipóteses que podem ser levantadas, na tentativa de explicar a força redobrada dos vetores de avanço social, ainda que em ambiente econômico desfavorável. É óbvio que nada disso seria possível sem continuidade e persistência nas ações, mas quem sabe não é o próprio avanço que aciona o motor do progresso, criando condições de sinergia social e oferecendo sustentação para aprofundar as melhorias?

Se essa hipótese fizer algum sentido, o ritmo lento das melhorias na educação e o desequilíbrio na oferta de vagas no mercado de trabalho aquecido – que mostra forte recuperação nos serviços, mas perdas na indústria e na agricultura –, por exemplo, podem ser menos lacunas a lamentar do que espaços para reforçar políticas e ações que levem a novos e ainda mais sólidos progressos.

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