Sir Thomas Gresham está preocupado com o euro

José Paulo Kupfer

23 de fevereiro de 2010 | 14h02

Sir Thomas Gresham

Este nobre cidadão, que nos contempla com esse olhar severo, impede que a solução da gravíssima crise do euro seja fácil. A ideia de que a Grécia deve voltar, ainda que temporariamente, ao velho dracma, é inviável por conta de uma lei econômica formulada (mas não escrita como tal) por este senhor circunspecto.

Sir Thomas Gresham (1519-1579), comerciante e financista inglês do século XVI, entrou para a história econômica como o autor da “Lei de Gresham”, segundo a qual, num resumo conhecido, “a moeda má expele a boa”. Conselheiro de Eduardo VI e de Elisabeth I, Gresham convenceu a rainha a revalorizar a moeda inglesa com certa quantidade de ouro por peça, depois que Henrique VIII e seu filho Eduardo rebaixaram o valor metálico da moeda, acrescentando cobre à liga de prata. A solução de Gresham custou caro, mas, de acordo com a História, salvou a Inglaterra da insolvência e abriu caminho para a expansão imperial dos séculos seguintes.

A lógica da “lei de Gresham” é a seguinte: onde circulam duas ou mais moedas, as pessoas tentam se livrar das moedas percebidas como menos valiosas, usando-as, sempre que possível,  como meio de pagamento nas transações, ao mesmo tempo em que procuraram guardar a moeda tida como mais valiosa, pois esta tem valor de reserva. Nesse processo, a moeda boa tende a sair de circulação e as moedas ruins trocam de mãos cada vez mais rapidamente.

A introdução de uma moeda nova, no caso da Grécia, o velho dracma, numa economia em que o euro operava em curso forçado, além de dificuldades institucionais (reforma de contratos) e físicas (a logística de imprimir e distribuir a nova moeda), produziria uma catástrofe econômica. E, muito possivelmente, uma convulsão política. Não é por coincidência que já pipocam greves e protestos em Atenas.

Como já mencionou Paul Krugman em seu blog, citando Barry Eichengreen (ver aqui), quem pudesse escaparia para o euro, em outros países da área do euro, visto que há mobilidade de capital intra-membros. Para os demais gregos, que receberiam salários e remunerações em dracmas, seria um calote com características de confisco. A corrida para se livrar da moeda, aumentando sua velocidade de circulação, potencializaria pressões inflacionárias irresistíveis.

O euro entrou em área de imensa e perigosíssima turbulência por uma combinação perversa de descontrole fiscal (não é possível a existência de uma  moeda única sem controle fiscal nos países membros) e fraudes contábeis para camuflar esse descontrole. O gravíssimo é que a ação deletéria, segundo sérias suposições, deu-se num conluio entre governos e instituições financeiras privadas, caso do americano Goldman Sachs. O fato é que, agora,  dos 16 países do euro, 12 estão sob investigação, sob suspeita, como escreveu nesta terça-feira o ex-ministro Delfim Netto, em sua coluna no jornal “Valor”, de produzir contabilidade  “criativa”.

Vamos falar claro: não há solução econômica para o caso das economias europeias em risco de solvência soberana. E, pior, para o próprio euro. Já pensaram num calote em cadeia de dívidas soberanas na Europa, como já tem gente insinuando?

Tanto quanto a criação da moeda única comum foi, no fim das contas, um ato de vontade política da comunidade europeia, a salvação do sistema exigirá saída política. Ao contrário de ideia simplória de desligar os “maus filhos”, a tendência é que a integração dos países se acelere e aprofunde. As esperadas resistências apenas retardarão um processo praticamente inevitável.

Fora disso, nem é bom pensar o que pode suceder.

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