Só um soluço da indústria em agosto?

José Paulo Kupfer

05 de outubro de 2016 | 13h06

Texto atualizado em 6 de outubro de 2016, às 12h20, com informações da produção de veículos em setembro.

A produção industrial em agosto pregou um susto nos analistas. Quase todos esperavam um recuo em relação a julho, mas nenhum previu o tamanho mais forte da queda. Na pesquisa mensal do IBGE, o setor apresentou contração mensal de 3,8% e interrompeu uma trajetória positiva de cinco meses consecutivos. Em relação a agosto do ano passado, a redução foi de 5,2% e, no acumulado dos últimos 12 meses, chegou a 9,3%.

A retração atingiu 21 dos 24 segmentos pesquisados, mas o vilão foi o setor automobilístico, seguido da indústria de alimentos. Do outro lado, a produção de bens de capital, um indicador de potencial melhora da atividade à frente, registrou ligeira alta.

Alguns avaliam que o recuo da produção industrial em agosto se deveu a questões pontuais, como paralisações em fábricas de automóveis e caminhões. Espera-se uma retomada das altas em setembro, ainda que em intensidade modesta.

O quadro que é possível vislumbrar do futuro próximo, porém, não permite garantir que o ocorrido em agosto foi apenas um soluço na curva de recuperação do setor industrial. Se a redução de estoques prossegue, o que é um indicativo de retomada da produção, a ocupação da ampla capacidade ociosa nas fábricas ainda se dá com uma certa hesitação.

Na indústria automobilística, por exemplo, setembro também foi um mês de retração. A produção de veículos recuou 3,9% sobre agosto e 2,2%, em relação a setembro de 2015. Trata-se do menor nível de produção desde 2003. No acumulado do ano até setembro, na comparação com o mesmo período do ano passado, a queda está em 18,5%. Dados da Fenabrave, que reúne as concessionárias de veículos, mostram que as vendas caíram 13% de agosto para o mês passado.

As informações da indústria sinalizam retração do PIB maior do que antes projetada, no terceiro trimestre deste ano. Já se previa que entre julho e setembro o nível de atividades recuaria cerca de 0,5% sobre o trimestre anterior, marcando o efetivo fundo do poço do atual ciclo recessivo, uma vez que as projeções para o último trimestre do ano ainda são de algum pequeno crescimento na margem. Mas é possível que o recuo da economia no terceiro trimestre avance até 0,7%, reforçando a perspectiva de queda do PIB em 2016 mais próxima de 3,5% do que de 3%.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.