Exigir que o investimento cresça, neste momento, é incoerente

José Paulo Kupfer

12 de setembro de 2009 | 10h43

Na cobertura dos resultados do PIB no segundo trimestre do ano, além dos números positivos do crescimento, os jornais deram destaque à queda nos investimentos. Faz sentido, mas a mão pesou, ainda que mais nos títulos do que nos textos.

O investimento, sem dúvida, é um componente muito importante na avaliação das perspectivas econômicas. É sua evolução que vai indicar a capacidade de uma dada economia sustentar uma dada tendência de crescimento ao longo do tempo.

Uma economia aquecida na qual o investimento patina tem encontro marcado com a inflação e com todos os fatores de limitação da continuidade do crescimento, a começar do nível da taxa básica de juros.

Estaria, portanto, tudo muito certo com a cobertura dos jornais dos resultados do segundo trimestre se o ambiente econômico em que os números divulgados se formaram fosse normal. Mas, como sabemos todos, estamos falando de tempos para lá de anormais.

A explicação do ministro Guido Mantega para a estagnação do investimento, na rápida entrevista coletiva que concedeu na manhã de sexta-feira, em São Paulo, é bem razoável. Na retomada da economia, depois de um pico da crise, argumentou ele, o investimento é o último fator a se recuperar. De fato, as empresas primeiro queimam estoques, depois preenchem a capacidade ociosa e, finalmente, retomam os investimentos.

Assim, a primeira e mais segura indicação que a fraqueza do investimento nos dá é a de que houve sim uma crise na economia brasileira – e uma crise de grandes proporções. A atividade econômica, principalmente a industrial, mergulhou fundo e surpreendentemente rápido. Ou seja, exigir crescimento do investimento, neste momento, é incoerente. Ou bem não foi uma marolinha ou bem o investimento só pode mesmo se recuperar, caso se recupere, mais na frente.

Por isso, a outra indicação que a anemia dos investimentos fornece, relativa aos gargalos que a economia poderá enfrentar no futuro, só pode ficar no painel de controle. Dependerá da evolução dos mercados e da atuação do governo para se confirmar ou não.

A medição dos investimentos, como quase tudo no cálculo das contas nacionais, é feita por aproximações. Na regra brasileira, em linha com padrões internacionais, o item investimento é expresso pela formação bruta de capital fixo (FBCF), um elemento físico e concreto, composto praticamente por dois itens:  vendas de máquinas e equipamentos (50% do total) e obras de construção civil (40%).

A Sondagem industrial, realizada trimestralmente pela Fundação Getúlio Vargas, indica que a utilização da capacidade instalada está em 80%.  Há um ano, no período imediatamente anterior à crise, estava em 86%.

Algumas projeções indicam que, em passo com um crescimento econômico de 5% ou 6%, em 2010, a utilização da capacidade instalada chegará a algo entre 82% e 85%. Em resumo, a recuperação do investimento, caso a economia realmente continue a avançar como dizem as projeção, vai ser lenta. Estímulos ao setor de máquinas poderiam acelerar o trem.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.