Tempo de exageros

José Paulo Kupfer

15 de outubro de 2008 | 18h18

Depois de, finalmente, entenderem que o socorro dos governos ao setor financeiro global focou no ponto certo e em volume suficiente, os mercados “descobriram” que, quando a guerra pela restauração da confiança terminar, o campo de batalha estará coalhado de corpos mutilados e escombros – ou seja, às voltas com uma combinação complicada de recessão e déficits fiscais, a economia real é que, numa quadra de reestruturações, necessitará de ajuda.

Antes, porém, de acabar de contar os mortos e recolher os destroços das economias, o mercado, observando a terra arrasada, continuará alternando surtos de pânico com momentos de euforia. São reações exageradas, mas, a esta altura, até previsíveis. Nos próximos meses, até que a grossa poeira comece a assentar e, principalmente, o novo presidente dos Estados Unidos assuma o leme do barco econômico mundial, será assim: oscilações, talvez aos poucos menos exageradas, mas oscilações.

Já é possível vislumbrar sinais de que a ação dos governos, quando a operação de resgate da confiança entrar em velocidade de cruzeiro, alcançará os efeitos esperados. As taxas interbancárias começaram a recuar e isso facilita aos bancos a decisão de emprestar – de resto, algo que não poderia permanecer em eterno empoçamento.

Feitas as contas, o total que deverá se despejado pelos governos no mercado para recuperar a confiança dos emprestadores e retomar o fluxo de crédito, ainda que em outras e menos flexíveis bases, não monta a algo inviável para nenhum governo. Mas o tamanho do saque de dinheiro dependerá do tamanho da recessão já em curso.

O presidente do Fed, Bem Bernanke, disse hoje que a economia americana já está em recessão e que a recuperação vai ser lenta. O “Livro Bege” – um relatório das unidades regionais do Federal Reserve – aponta desaceleração geral da atividade.

Essas informações, na visão dos famosos “analistas de mercado”, foram a senha para a violenta derrubada das bolsas registradas hoje. Mas, se, em seu último relatório, preparado para a reunião da semana passada, em Washington, o FMI projetou um futuro de derrubada da atividade econômica para 2009, sobretudo nos Estados Unidos e Europa, não o descreveu com tintas catastróficas. E o guru do momento, Nouriel Roubini, com todo o seu pessimismo, vaticina um ciclo recessivo relativamente curto, de um ano e meio a dois. Diante do estrago produzido pela liquidez irracional, até que dá para salvar os ossos.

Os tempos, enfim, são de exageros. Há pouco a fazer contra eles, a não ser esperar que as ações dos governos comecem a restabelecer o fluxo de crédito e se completem os ajustes econômicos impostos pelo crash e, em seguida, pela recessão.

 

Atualizado às 20h10

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