Um “grau de investimento” que não muda muita coisa

José Paulo Kupfer

22 de setembro de 2009 | 20h50

A Moody´s, última das grandes agências internacionais de classificação de risco a não conceder “grau de investimento” às dívidas brasileiras, acaba de perder essa qualificação. Em comunicado distribuído nesta terça-feira, a agência anunciou ter elevado a economia brasileira ao piso de sua faixa de “grau de investimento”.

No comunicado em que anunciou a decisão, a agência avalia, naquela linguagem tipicamente tortuosa, que as condições econômicas parecem favoráveis para constantes reduções dos indicadores de dívida do governo, devido à perspectiva de crescimento no curto prazo. “A Moody’s acredita que as chances de que o Brasil continue melhorando seu perfil de crédito são razoavelmente altas”, declarou Mauro Leos, responsável da agência pela área de análise de crédito na América Latina. “Por esta razão, atribuímos uma perspectiva positiva aos ratings soberanos do Brasil.”

É ótimo que a economia brasileira seja graduada pelas agências de classificação de risco. Isso facilita a atração de recursos e, em teoria, reduz os custos de captação. É melhor ainda que uma grande agência de classificação de risco reconheça que o governo revela capacidade de enfrentar crises e, por conta disso, resolva graduar a economia.

No caso da Moody s, porém, sempre ficará a dúvida em relação aos motivos que a levaram a demorar tanto a seguir suas concorrentes. E por que ela só o fez no exato período em que um dos elementos cruciais para a definição dos ratings soberanos – a política fiscal – não se encontra no seu melhor momento, pelo menos na visão do mercado financeiro, de cuja visão as agências compartilham.

O curioso é que, ao graduar a economia brasileira justamente agora, a Moody s contradiz a turma que aqui opera com a mesma lógica dela. Está certo pessoal, parece dizer a agência, o governo pisou no acelerador da gastança, mas – vocês vão querer nos matar –, achamos que a situação ainda está bem sob controle. Uma ligeira saia justa.

No fim das contas, o “grau de investimento” da Moody s não muda muita coisa. O dr. Henrique Meirelles vai comemorar e o presidente Lula vai dizer que nunca antes neste país a economia recebeu notas tão altas (o que, aliás, é verdade mesmo).

Só os chatos vão lembrar que, mal faz um ano, essas mesmas agências de classificação de risco recomendavam, com entusiasmo, investir em instituições financeiras totalmente quebradas. E que, na hora em que a onça bebe água na economia global, com grau de investimento e tudo, melhor mesmo é ter um mercado interno parrudo e a menor dependência possível das finanças internacionais.

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