Um novo (e mais perigoso) vilão da inflação

José Paulo Kupfer

07 Junho 2016 | 17h02

O vilão da inflação desta vez não é o tomate. Agora é a soja — coadjuvado por outros grãos, como o milho —, um vilão muito mais sério e perigoso. É a alta de preço do grão da família das fabaceae que está por trás do salto ocorrido no Índice de Preços ao Produtor Amplo, o nome desde 2010 do antigo Índice de Preços por Atacado (IPA), que levou o Índice Geral de Preços (IGP), calculado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV-RJ) a voar, em maio, para além do teto das projeções. Medida pelo IGP-DI, a inflação, no mês passado alcançou 1,13%, contra 0,36%, em abril, e avançou para 11,26%, no acumulado em 12 meses.

Enquanto o tomate, com todo o respeito, é uma plantinha boba, sensível, é verdade, a qualquer chuvinha, mas de fácil cultivo (até em garrafas pet) e ciclo curto, passível de ser substituído ou deixado de lado por um tempo sem qualquer dificuldade, a soja é o exato oposto. Seu cultivo exige áreas extensas, tecnologia e recursos intensivos em maquinário, sementes e fertilizantes.

Além disso, sua substituição, quando os preços sobem, é muito mais complicada — sua elasticidade-preço, como dizem os economistas, não é alta. A soja afeta um grande número de produtos que integram os índices de preços. Os grãos de glycine max são importantíssimos na cadeia alimentar de produção de proteínas e estão presentes na ração de bovinos, suínos e aves. Também integram sob diferentes formulações em uma enorme lista de alimentos industrializados.

O  movimento de alta nos preços da soja (e de outros grãos) começa com problemas climáticos no Hemisfério Sul, afetando a safra brasileira e, mais ainda, a argentina. Redução dos estoques, principalmente, nos Estados Unidos, e reação altista da demanda internacional, sobretudo na China, se combinam para explicar a elevação das cotações. A tendência para os próximos meses é de que os preços cedam, mas não retornem, pelo menos antes de 2017, aos níveis em que se encontravam antes da alta de agora.

Mesmo com aceleração da pressão em alimentos, os índices inflacionários, de acordo com projeções atualizadas, terminariam 2016 entre 7% e 7,5%, mantendoa perspectiva de encerrar 2017 nas vizinhanças de 5,5%. Não seriam, caso confirmadas, diferenças muito acentuadas, em relação às estimativas anteriores, mas, de todo modo, adicionam alguns graus de cautela no ritmo da marcha descendente da alta preços daqui para frente.