Um outro jeito de pensar é possível

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Um outro jeito de pensar é possível

José Paulo Kupfer

10 de agosto de 2009 | 19h24

Editado pelo jornalista Sergio Sister, para a Fundação Perseu Abramo, ligada ao PT, o livro “O ABC da crise” (Sergio Sister-org; Editora Fundação Perseu Abramo; São Paulo; 184 páginas; R$ 20) tem uma qualidade fundamental: dá passagem a visões alternativas sobre a crise global.

A escolha dos artigos, declaradamente, recaiu sobre autores não-liberais, embora, como ressalta Sister na introdução de “O ABC da crise”, “isso não significa absolutamente que haja neste livro uma visão única dos acontecimentos e seus efeitos”. Só sair do mundo do pensamento neoliberal, tão hegemônico nas últimas décadas, confere à pequena coletânea de artigos e entrevistas, valor especial. Nada contra a difusão das ideias econômicas liberais, mas tudo contra à difusão SÓ de ideias liberais. 

“O ABC da crise” tem outras vantagens. O livro oferece uma oportunidade rara de tomar contato com análises e sugestões de especialistas renomados, mas esquecidos pelo mídia, como o professor Paul Singer. E de economistas de departamentos econômicos de centrais sindicais, caso do Dieese-CUT. E, ainda, de experientes, ativos e titulados professores de economia de universidades de ponta, raramente chamados para o debate fora dos muros acadêmicos, como Cezar Manuel de Medeiros, da UFRJ, e Carlos Eduardo Carvalho, da PUC-SP.

Editado com um claro objetivo de explicar a crise global de um modo didático, mas com cuidado para não simplificar temas espinhosos e complexos, “O ABC da crise” traz artigos introdutórios e cronologias úteis para os não iniciados. Apresenta também, de um modo organizado, textos de Luiz Gonzaga Belluzzo e do Prêmio Nobel Paul Krugman já veiculados em publicações e datas diversas. Uma entrevista exclusiva do ministro Guido Mantega, e duas outras, do sociólogo Chico de Oliveira e da professora emérita da UFRJ Maria da Conceição Tavares, reproduzidas do site Carta Maior, completam a obra. 

* * *

Observar o mundo com lentes divergentes é de grande valia para entender o que se passa diante de nossos olhos e nem sempre enxergamos. Reproduzo abaixo, a propósito, um trecho do artigo do economista Carlos Eduardo Carvalho, publico em “O ABC da crise”. É um resumo do que ele denomina “paradigma geral” neoliberal. Qualquer coincidência com o que, nos últimos anos, dominou o debate econômico e a cobertura de economia na mídia, não é mera coincidência.

1) Prioridade absoluta para os direitos do capital

a) ampliação dos direitos dos credores e dos investidores em títulos financeiros: “respeito aos contratos”, “regras claras”, “transparência”;
b) ajuste fiscal para garantir o pagamento pontual das obrigações do Estado com a dívida pública;
c) estabilidade do valor da moeda e do sistema financeiro, para evitar os riscos de desvalorização de ativos financeiros;
d) liberdade cambial, livre movimentação de capitais, conversibilidade.

2) Ocultamento das relações capital-trabalho e responsabilização do indivíduo diante do capital

a) exclusão das relações de trabalho do debate público, colocadas como questão inexistente ou como questão privada, sobre a qual não se deve falar;
b) proteção social tratada como questão individual, como decisão pessoal de prevenir-se; previdência pública apenas para os miseráveis, os que “não deram certo”;
c) direitos dos trabalhadores tratados como privilégios, fruto do populismo, e causa de desemprego e de ineficiência econômica;
d) possibilidade de emprego como decorrência da qualificação e das aptidões do trabalhador, e não como função do desempenho da economia e da estrutura produtiva.

3) Despolitização da política econômica, tratada como técnica universal;

a) “fim da macroeconomia”: políticas macroeconômicas apresentadas como técnicas rígidas, divididas apenas em “responsáveis” e “populistas”;
b) transferências das preocupações com o crescimento, o emprego, a distribuição de renda, a eficiência e a produtividade para programas localizados, “microeconômicos”;
c) independência e autonomia das instâncias públicas decisivas, em especial o Banco Central, de modo a deixá-las fora do alcance da sociedade e das instituições políticas democráticas.

4) Abertura de novos espaços para a valorização do capital

a) privatização generalizada do setor produtivo estatal;
b) transferência da saúde, previdência e educação para o setor privado, pois o mercado é mais capaz de prover as necessidades individuais e sociais que o Estado.

5) Responsabilização dos países dependentes pelos efeitos da desordem financeira internacional

a) defesa da liberdade de circulação de capitais e da livre conversibilidade das moedas;
b) responsabilização de fatores domésticos pelas crises cambiais: ausência do “ajuste fiscal necessário”, falhas de regulação dos sistemas financeiros, políticas monetárias “frouxas”.

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