Um PIB ainda sem suspensórios

José Paulo Kupfer

11 de junho de 2008 | 16h16

A divulgação do PIB do primeiro trimestre de 2008, como sempre na divulgação do PIB, tem boas e más notícias. Isso já complica um pouco entender para onde vai a economia, que é, afinal, o que importa. As informações divulgadas retratam o que já aconteceu e olhar pelo retrovisor ajuda, mas não resolve o problema de levar o carro adiante sem acidentes. Dependendo do viés político-ideológico de cada um, as boas notícias para uns são ruins para outros e vice-versa. E isso complica ainda mais.

Não foi diferente desta vez. A economia cresceu 5,8% sobre o primeiro trimestre de 2007 e também no ano encerrado em março de 2008 e o presidente Lula comemorou o fato. Está no papel dele, mas esse crescimento, o maior em 12 meses desde 1996, primeiro ano de cálculo da série nova do IBGE, se é alto para os atuais padrões brasileiros, continua atrás de outras economias emergentes e aponta para uma desaceleração. As estimativas em torno de um crescimento de 5% em 2008 continuam valendo e isso significa que o resultado do primeiro trimestre pode ter sido o pico do ano.

Essa avaliação é mais ou menos consensual. Mas, daí para frente, a coisa muda e os caminhos se bifurcam. As divergências, digamos assim, convergiram para dois pontos. Um deles, preocupação dos “ortodoxos”, é o gasto público, que explodiu no período e puxou o PIB para cima. O outro, preocupante para os “heterodoxos”, é o setor externo, que está descendo a ladeira e puxou o PIB para baixo.

Uma curiosidade é que os dois lados fazem o que se poderia chamar de ressalvas cruzadas. “Heterodoxos” lembram que os gastos públicos foram negativamente impactados pela lei eleitoral. Como a lei limita ao primeiro semestre a destinação de recursos públicos em anos de eleição, ela própria incentivou uma concentração de desembolsos no primeiro trimestre. De seu lado, “ortodoxos” apontam as longas greves de fiscais da Receita Federal nas alfândegas, no primeiro trimestre, como fator suficiente para distorcer a avaliação do que se passa nas importações e exportações.

Outra curiosidade é como, nos dois pontos de vista, os problemas que afligem a ambos embutem, neles mesmos, uma espécie de solução cruzada. Na visão “heterodoxa”, a inflação mais elevada, mas ainda sob controle, teria ela própria colaborado para acomodar melhor o consumo das famílias, num ponto mais contido. Já no modo de ver “ortodoxo”, o próprio déficit em contas correntes, ainda manejável diante do volume de reservas cambiais atualmente acumulado, se encarregaria de elevar a taxa de câmbio, acomodando melhor o setor externo, numa faixa de equilíbrio.

Essas são, sem dúvida, “soluções” possíveis, mas a custos e, principalmente, riscos bem altos. Quando se observa com mais isenção as preocupações dos dois lados, vê-se o que o melhor caminho pode estar no meio. Sem, por exemplo, reduzir a dívida pública, será muito difícil fazer a taxa de investimento alcançar o equivalente a 25% do PIB, nível requerido para sustentar um crescimento duradouro acima de 4% ao ano – isso quando as coisas vão bem.

Isso não precisa significar apenas um corte bruto nos gastos públicos – significa administrá-los com qualidade e foco social. Significa também considerar que elevações das taxas de juros fazem mais parte do problema do que da solução, visto que engordam as dívidas públicas e os déficits.

Lula, tremendo intuitivo, já percebeu a dificuldade de encontrar esse desejável meio caminho. Ele sabe que o PIB brasileiro ainda não tem suspensórios. Ontem, ao comemorar o resultado trimestral, declarou que prefere o País crescendo 4% ou 4,5% ao ano por muito anos a dar uns estirões que não se sustentem.

Complicado mesmo encontrar a chave para escapar desse círculo de ferro. O ruim da idéia, não só para as enormes necessidades brasileiras, mas também quando se olha o ambiente internacional, que não tem se contentado com tal nível de crescimento, o que Lula propondo, com todo o respeito, é andar para trás.

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