Um piso para o câmbio?

José Paulo Kupfer

29 de setembro de 2010 | 10h33

A economia – mais precisamente as políticas econômicas e, mais precisamente ainda, a política na economia – não é assim uma caixinha de surpresas, como o futebol, mas volta e meia surpreende. O Banco Central assumir a liderança na defesa de políticas para evitar uma valorização ainda mais forte do real é uma dessas surpresas.

Nesta terça-feira, o presidente do BC, Henrique Meirelles, foi, surpreendentemente, mais longe do que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, falando claro na possibilidade de o governo voltar a usar o IOF na tentativa de conter o ingresso de capitais especulativos. Enquanto isso, Mantega baixava um pouco a bola, pelo menos em relação a uma decisão de momento. Essa aparente inversão de papéis é uma novidade e tanto.

É possível que as declarações das autoridades brasileiras tenham sido combinadas, mas não há como garantir. De todo modo, elas parecem fazer parte de uma primeira fase de uma intervenção mais firme no câmbio – a fase do gogó.

O uso do gogó em política cambial tem seu efeito. Lança incertezas na praça, dificultando os cálculos dos investidores, sobretudo dos especuladores. Mas, quando o ambiente é aquele em que a ganância supera o medo, o impacto do gogó costuma ser efêmero.

Agora, se está convencido de que é mesmo o caso de intervir no mercado, para ter êxito na empreitada, o governo terá de tomar decisões mais complicadas. Por exemplo, mudar o objetivo da política cambial.

Até aqui, a política cambial visa evitar volatilidade excessiva nas cotações do dólar, o que é feito com o enxugamento das sobras de dólares no mercado. Isso tem levado a um acúmulo ilimitado de reservas cambiais, a custos fiscais crescentes.

Para uma intervenção que pretenda enfrentar uma guerra cambial e, portanto, vise defender a taxa de câmbio de valorizações mais acentuadas, essa política é fraca. Mais eficaz, no caso, seria operar com uma política cujo objetivo seria manter um piso para a cotação.  Nos moldes do que o Japão passou a fazer, nas últimas semanas.

Óbvio que o governo não declararia qual seria esse piso, nem adiantaria quando faria as intervenções. É fundamental, em ações desse tipo, impor imprevisibilidade ao mercado. Na política atual, as intervenções têm sido muito previsíveis.  

Não se está sugerindo aqui a adoção dessa mudança na política cambial – ainda que talvez até seja o caso. O que se está dizendo é que, no estado de guerra cambial em que realmente se encontra a economia internacional, esse é um caminho cada vez mais nítido no horizonte.

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