Uma lógica para as taxas de juros

José Paulo Kupfer

26 de abril de 2008 | 21h14

Aqui, um texto do leitor e comentarista Marco Aurélio Garcia, que se assina MAG, na área de comentários. MAG parece acreditar que a expressão monetária dos fenômenos econômicos é predominante para sua explicação. Há, obviamente, controvérsias. Mas a disposição para o debate merece destaque.

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ENTENDENDO POLÍTICA MONETÁRIA

Por Marco Aurelio Garcia*

“Ao longo dos anos 90, fiquei muito impressionado com a facilidade com que passamos a influenciar, com a política monetária, a taxa de juros de longo prazo. Ficou mais fácil cumprir a missão.” Alan Greenspan

O BC gerencia a política monetária através da análise de variáveis (controláveis ou não), da influência entre elas, dos efeitos sucessivos, da contaminação e do monitoramento das controláveis. A análise dos efeitos da taxa básica (ib) na taxa de juro de longo prazo (imlp) é imprescindível. A imlp é a taxa estabelecida pelo livre mercado (oferta e demanda).

São as diversas taxas que, em um dado momento e para vários prazos, formam a curva da imlp. É importante estudar a tendência da curva (se ascendente ou descendente) e a sua evolução no tempo (se ascendente ou descendente). É base para a tomada de decisão na fixação da ib (que é a variável, através da qual os agentes, que têm valores em jogo, precificam a inflação futura e a imlp).

A ib é a taxa de curto prazo pela qual o BC remunera as sobras de moedas do mercado, regulando a monetização da economia. O ponto neutro ou de equilíbrio (in) é o ponto da imlp mais negociado. A in depende de vários fatores, entre os quais a situação fiscal (+ ou – déficit), a taxa de investimento e o endividamento público, a credibilidade do BC, o grau de abertura da economia e a eficiência do sistema financeiro.

É a taxa onde as forças da oferta e da demanda se encontram e se equilibram, atingindo o máximo produto e utilização dos fatores de produção sem provocar inflação (nas crises o efeito manada distorce a in). Teoricamente a ib deveria oscilar em torno da in. Evidentemente, se houver ameaça inflacionária, o BC coloca, temporariamente, a taxa básica acima desse nível de equilíbrio, para fazer com que essa ameaça seja debelada. O inverso vale quando há ameaça de deflação e de recessão (ou desaceleração indesejada).

A in, teoricamente, é a taxa em que a economia atinge a sua mínima taxa de desemprego sem inflação. A política monetária pode ser classificada como: a) EXPANSIONISTA, quando a ib fica abaixo da in. Os agentes não têm motivação para aplicar suas poupanças no BC, dirigindo-as para o mercado; b) CONTRACIONISTA, quando a ib fica acima da in. Os agentes ficam motivados a aplicar suas poupanças no BC, retirando-as do mercado; c) NEUTRA, quando a ib é fixada igual à in.

Pode também ser classificada como: a) CAUTELOSA E TEMPESTIVA; b) CAUTELOSA E QUE SE ANTECIPA (PREVENTIVA); c) PRUDENTE; d) IMPRUDENTE (frouxa). A política monetária expansionista (ib menor do imlp), apesar de atraente, pois provoca um crescimento artificial no início (maior quantidade de moeda no mercado) que agrada a todos (não é sustentável nem consistente, forma bolha), causa males profundos que exigem ações corretivas sempre radicais e que causam grandes sofrimentos.

Além da inflação, do desequilíbrio nos preços relativos, na redução do poder de compra dos salários (ACABA A PAZ SINDICAL), no aumento dos juros reais, pode valorizar alguns ativos artificialmente (quando a correção vem, pode provocar quebras, crise de crédito, de liquidez e de solvência). O crescimento da demanda ocorre em velocidade maior que o da oferta.

Uma política monetária neutra ou contracionista (ib = ou maior que imlp), menos atraente no início, por ser mais realista, tem como grande atrativo o crescimento consistente e sustentável, sem inflação, com preços relativos equilibrados, as valorizações dos ativos não são artificiais (são reais). A velocidade do crescimento da demanda e da oferta são equilibradas. A redução da quantidade de moedas no mercado reduz as atividades econômicas, a demanda interna (consumo e investimentos) e a pressão sobre os preços (inflação), aumentando, por outro lado, a propensão a poupar.

É o AMBIENTE ECONÔMICO e a inflação desejada que definem o quanto a ib deve ser fixada acima da in. O GRAU DE CONFIANÇA E DE CREDIBILIDADE passados pela autoridade monetária, pelas instituições, os números do país (reservas, saldos do balanço comercial, fiscal e em transações correntes, dívidas externa e interna) e a conjuntura definem a in, a taxa de financiamentos externo para o Brasil e a distância entre as duas.

No Brasil a in e a imlp são maiores que as taxas externas. No Japão e na Suíça acontece o inverso. Efeitos da ib (Selic): a) No Balanço Comercial e no Câmbio – A ib acima da in diminui a demanda interna, motiva as empresas para as exportações e reduz as importações. O aumento das exportações e a redução das importações podem fazer a relação cambial ficar favorável à moeda pátria. A ib fixada abaixo da in aumenta o consumo interno, as importações e reduz a motivação para as exportações. b) Na imlp – Se o BC fixar uma ib que passe insegurança fará com que os agentes fiquem receosos quanto ao futuro e subam a imlp (prevendo aumento de inflação).

Neste sentido a fixação de uma ib baixa provoca efeito reverso (sobe a imlp). A in é uma taxa de juro de equilíbrio ideal (mas virtual). A ib é a autoridade monetária (BC) atuando. Medidas complementares no combate à inflação: depósitos compulsórios; compra ou venda de títulos públicos; compra ou venda de moedas, inclusive atuação em mercados futuros; I. O. F. = Imposto sobre Operações Financeiras; reduzir prazos de financiamentos através de normas.

(*) Marco Aurélio Garcia é economista.

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