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Utopias em alta frequência

José Paulo Kupfer

23 de maio de 2011 | 18h40

Uma interessante reportagem da colega Yolanda Fordelone, publicada nesta segunda-feira, no vizinho Estadão impresso, mostra que, de modo ainda lento, mas firme, as operações de alta freqüência em bolsas de valores estão avançando no mercado brasileiro. Operações de alta freqüência (high frequency trading, HFT, em inglês) são aquelas cuja ordem de compra ou venda é disparada pelo computador, a partir de uma programação prévia.

No Brasil, menos de 6% das operações na Bolsa de São Paulo são feitas em HFT. É um porcentual mínimo diante dos negócios por robôs (softwares instalados em computadores) programados para executar algoritmos, na Bolsa de Nova York, que já chegam a 80% do total das ordens emitidas.

Disponíveis há algum tempo, no Brasil, para investidores institucionais, as ferramentas de programação de ordens de compra e venda estão começando a chegar aos investidores pessoais em ações. Capazes de enviar ordens na velocidade de um milisegundo, os robôs oferecem a perspectiva teórica de multiplicar ganhos unitários infinitésimos em montanhas de dinheiro, num átimo de tempo.

É claro que ganhos e perdas dependerão dos algoritmos utilizados e do momento em que são utilizados. É possível programar, por exemplo, para que ordens de venda sejam dadas a partir de certo nível de volatilidade do papel ou de certo número de ordens de compra de uma ação em dado período. Fácil perceber que as combinações para disparar ordens são infinitas.

Parece ficção científica – e não é. Apenas a ancestral inclinação humana na busca de fórmulas que eliminem incertezas da existência encontrou nos modernos sistemas computacionais e nos equipamentos de altíssima capacidade de processamento uma aparente caixa de soluções. O único problema é que a eliminação de incertezas não passa de uma utopia – que, como tal, pode ser buscada, mas nunca alcançada.

O caso bem mais singelo das análises grafistas do comportamento de papéis negociáveis em bolsas ilustra essa eterna e inútil busca. A constatação de que a organização das cotações de um título ao longo do tempo permite a determinação de tendência histórica tem propiciado a formação de um campo de conhecimento complexo.

A análise grafista (ou técnica) pretende, com suas linhas de suporte e resistência, antecipar os momentos propícios de compra ou venda, com base no comportamento passado dos gráficos das cotações. Tem vezes que dá certo, mas não a ponto de eliminar incertezas e expelir da praça muitos outros sistemas de análises.  

Tanto quanto os outros, os sistemas de alta freqüência não eliminam as incertezas em relação ao futuro dos ativos cotados em bolsas, com a desvantagem de que a velocidade de operação pode deflagrar perdas de dimensões catastróficas. Foi o que ocorreu, por exemplo, há pouco mais de ano, no dia 6 de maio de 2010, no meio de uma sessão vespertina rotineira da Bolsa de Nova York.

Tudo indica que alguém apertou um botão errado e ordenou vendas em massa, provocando uma reação em cadeia dos robôs programados por algoritmos. Entre 15h40 e 15h55, o índice Dow Jones registrou uma perda de quase mil pontos – a maior da história numa única sessão. Papéis de companhias sólidas acumularam perdas quase instantâneas de 20% ou 30% e o movimento provocou pânico nos mercados financeiros globais, com sucessões de “circuit brakers” nos pregões ao redor do mundo.

Passado o susto, os mercados se recuperaram, mas não aprenderam a lição. Continuaram acreditando que seria possível riscar do mapa o fator humano e eliminar as incertezas, relegando aos robôs a tarefa de emitir ordens de compra e venda. Nada muito surpreendente. Já não tinham acreditado antes nessa utopia, quando, sobretudo a partir dos anos 90 do século passado, pavimentaram a estrada que levou à crise global de 2008?

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