Vacinas contra a crise turca

José Paulo Kupfer

13 Agosto 2018 | 18h25

A crise aguda que afeta no momento os mercados na Turquia e promove um derretimento da lira turca contagia a economia global e atinge com mais força os emergentes — os “frágeis” de sempre. Mas também mercados da Europa e da Ásia são afetados, particularmente aqueles em que operam instituições financeiras mais expostas à Turquia, caso de bancos alemães e espanhóis.

Mesmo não aparecendo desta vez entre os mais diretamente afetados — nem exibindo razões técnicas para isso —, os mercados brasileiros entraram no redemoinho internacional. Depois de avançar até R$ 3,92, a cotação do dólar ante o real fechou a sessão do dia a R$ 3,88, enquanto a pressão nos juros futuros obrigou a duas suspensões dos negócios do Tesouro Direto. A Bolsa começou o dia caindo, mas fechou em alta razoável, acima de 1%.

Não há comparação possível entre os desequilíbrios externos turcos e os brasileiros. O déficit em conta corrente da Turquia passa de 5% do PIB — acima do sinal amarelo dado por saldos negativos maiores de 4% do PIB —, ao passo que o do Brasil mal chega a 0,5% do PIB. As reservas internacionais turcas, que caíram fortemente nas últimas semanas de US$ 98 bilhões para US$ 80 bilhões mal equivalem a 5 meses de importações, três vezes menos do que a relação entre as reservas e as importações brasileiras. O montante da dívida externa turca é quatro vezes superior ao total de reservas cambiais, situação completamente diferente do Brasil, em que as reservas superam em 20% a dívida externa bruta total.

É verdade que as duas economias apresentam fragilidades equivalentes nos déficits públicos, mas a simples comparação entre os níveis de inflação na Turquia, superiores a 15% em bases anuais, e no Brasil, próximos a 4%, mostram a diferença de qualidade entre os desequilíbrios de uma economia e de outra. Não é sem motivo, portanto, que, mesmo sem intervenção direta do Banco Central, o próprio mercado não tem se animado a testar com mais ímpeto a capacidade de resistência do setor externo brasileiro.

Ainda que o risco de contágio esteja sempre presente nesse tipo de evento financeiro global, o ingresso, nos últimos dias, de recursos externos no mercado de ações brasileiro é um bom indicador de que as vacinas da solidez externa possam estar funcionando. As mais recentes projeções de um dólar a R$ 3,70 no fim do ano, mesmo com a crise turca e a perspectiva de novas altas nos juros de referência americanos, reforçam essa suspeita.

É mesmo no lado doméstico, partir dos desequilíbrios nas contas públicas, dos quais decorrem graves conflitos distributivos, e nas incertezas políticas, crescentes com a proximidade de eleições indefinidas, que se localizam, no momento, os maiores riscos de instabilidades para economia brasileira.