Variáveis incertas

José Paulo Kupfer

04 de fevereiro de 2014 | 09h40

Mesmo com a perspectiva de um resultado negativo avantajado na balança comercial, logo no primeiro mês do ano — o que acabou confirmado ontem com a divulgação de um déficit de US$ 4,1 bilhões, em janeiro, o maior saldo negativo mensal já registrado, na série iniciada em 1994 — os analistas de mercado, de acordo com o boletim “Focus” de sexta-feira, voltaram a elevar suas projeções para o saldo comercial em 2014. Já é a terceira semana de ajustes para cima desde fins de 2013, com a mediana das previsões apontando agora para um excedente de US$ 8,25 bilhões, no fim de 2014 — um avanço próximo de US$ 1 bilhão em relação às estimativas iniciais.

É possível interpretar de muitas maneiras o aparente descompasso na combinação de um déficit comercial elevado no começo do ano com projeções crescentemente positivas para o saldo doze meses à frente. Uma delas é a de que, em períodos de acentuadas incertezas, como é o atual, impaciências analíticas podem levar a conclusões apressadas — e equivocadas. Daí a sugestão de evitar impaciências e não ‘comprar’ o resultado de um mês para períodos mais longos.

No caso específico da balança comercial, a diferença entre um saldo, no fim do ano, só um pouco menos raquítico do que o registrado em 2013 ou bem mais encorpado, nos níveis, quem sabe, de 2012, depende de uma sequência de variáveis incertas. Muito difícil encontrar uma resposta convincente, neste momento, sem saber qual será o grau de recuperação da economia na Europa e nos Estados Unidos — com todos os efeitos e consequências da reversão dos estímulos monetários —, a intensidade da perda de ritmo da atividade na China e até mesmo os impactos da crise cambial na Argentina sobre as vendas brasileiras ao exterior.

Ainda que se possam formular hipóteses heróicas para estas questões, restarão dúvidas relevantes a respeito da marcha das valorizações e desvalorizações do real, a variável mais crítica no conjunto de elementos que definem a trajetória dos saldos comerciais. É algo que envolve não só captar a direção correta dos movimentos futuros na economia global, mas tanto ou mais do que isso, os rumos da política econômia doméstica.

Até que ponto, por exemplo, o previsível anúncio de austeridade fiscal, agora insistentemente prometido pelo governo Dilma, será considerado suficiente para tirar a pressão das contas públicas sobre a demanda e terá condições efetivas de ser cumprido? O traçado da curva sobre qual as cotações do dólar vão se equilibrar — e, portanto, a reação de exportações e importações — também depende da resposta a esse quesito.

Se essa resposta for positiva, é de se esperar um alívio na pressão da demanda, abrindo espaço para alguma moderação na política monetária. No lado cambial, um cenário com esse desenho conduziria a uma menor valorização da moeda e isso, em conjunto com o desaquecimento da demanda, acabaria promovendo incentivo às exportações e, principalmente, desestímulo às importações.

Com base nessa hipótese de arrefecimento da demanda e consequente redução relativa das importações, já circulam projeções de um saldo comercial em 2014 nas vizinhanças dos quase US$ 20 bilhões de 2012 e de um déficit em transações correntes de US$ 65 bilhões — 20% abaixo do registrado em 2013. Ainda em zona de risco, mas em menor grau, o déficit externo recuaria de 3,7% do PIB, no ano passado, para 3% este ano.

São projeções muito distantes das previsões medianas do “Focus”, que apontam para um déficit em transações correntes de US$ 73 bilhões, e também das mais recentes estimativas do próprio Banco Central, que avançam a US$ 78 bilhões, equivalentes a 3,5% do PIB. Essa larga distância entre as previsöes máximas e mínimas serve para lembrar que, se a impaciência é sempre má conselheira na análise econômica, é ainda mais quando se trata das contas externas e, em especial, no caso delas em 2014.

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.