Velhos dilemas

José Paulo Kupfer

04 de junho de 2013 | 11h10

São tantas as variáveis envolvidas e tantos os desdobramentos possíveis que não há como concluir de antemão que o Banco Central acertou ou errou ao mudar sua estratégia de controle da inflação. As reações ao aumento mais agressivo da taxa básica de juros, decidido na reunião de fim de maio do Comitê de Política Monetária (Copom), apesar da surpresa da decisão, foram as de sempre – representantes do setor produtivo criticaram, analistas e consultores de mercado elogiaram. Não trouxeram, assim, contribuições relevantes ao debate das escolhas de política econômica, numa quadra em que a economia brasileira adiciona riscos cambiais ao binômio inflação alta-crescimento baixo.

É uma conjuntura especialmente complicada, na qual as margens de manobra da ação governamental se estreitam e se avolumam os “trade offs” – a escolhas conflitantes em que a solução de uma distorção causa outras. Em razão dessa realidade, tanto ou mais crucial do que estabelecer a linha de ataque aos problemas é dimensionar seus efeitos colaterais.

Difícil encontrar quem ainda hesite em definir prioridade mais alta para o controle da inflação, com o devido uso de políticas que possam fazê-la convergir, mais nítida e rapidamente, para o centro da meta. A persistência dos índices de preços nas fronteiras do teto da meta, que já é apontada por número suficiente de analistas como fator preponderante da contração do consumo e, em consequência, da própria economia, opera com clareza nessa direção. A questão toda reside na escolha das políticas que mais bem farão o serviço de conter a alta de preços, produzindo os menores estragos possíveis em outros campos.

Tanto quanto uma ação mais contracionista da política monetária, uma política fiscal menos expansionista, por exemplo, também pode tirar pressão do consumo e, em consequência, das altas de preços. Nos dois canais, o inconveniente da adoção de medidas contracionistas é a redução de estímulos ao crescimento da economia. Por que então escolher apenas a política monetária, quando se sabe que a elevação dos juros opera na direção de valorizar o câmbio e, com isso, alargar o caminho para acelerar a deterioração das contas externas – e ainda mais numa fase de recrudescimento das tendências deflacionárias na economia global, agora reforçada pela franca desaceleração chinesa?

A resposta convencional é a de que, além de ser o modo tipicamente eficaz de conter pressões inflacionárias, desta vez, a elevação dos juros atuaria para neutralizar uma nova tendência de desvalorização do real frente ao dólar, ela mesma um elemento inflacionário. Essa tendência, já revelada nas cotações da moeda americana, nestas últimas semanas, faria frente não só a uma combinação de percepção de perda de substância dos fundamentos da economia brasileira, sobretudo nas contas externas, marcada pela tendência à ampliação dos déficits em conta corrente. Expressaria também movimentação preventiva dos investidores globais às perspectivas de suspensão – ou até de reversão – dos afrouxamentos monetários promovidos pelo Federal Reserve, nos Estados Unidos, com tendência ao refluxo de capitais para o mercado americano.

Manter juros altos e câmbio valorizado é a receita histórica nas economias emergentes com baixa propensão a poupar, como é o caso da brasileira, para tentar impedir surtos inflacionários. O lado B dessa moeda é a tendência estrutural ao baixo crescimento e às crises cambiais. Bem sucedido na proeza de promover a estabilidade monetária, o Plano Real, em sua execução, não evitou o destino adverso. Com Lula, o padrão estrutural de baixo crescimento e deterioração cambial foi camuflado pelo tempo em que vigorou, na economia global, um ciclo excepcional de valorização de commodities primárias. Dilma, agora, se vê diante dos mesmos velhos dilemas.

 

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