Renda extra

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Viagem ao vendaval de 1998

José Paulo Kupfer

27 de fevereiro de 2008 | 07h21

Aparentemente, tem para todos os gostos nos números de janeiro do setor externo. Ainda mais que são números tão fora da curva que, aparentemente, fica difícil definir, com base neles, uma tendência clara. Mas, se a história vale de alguma coisa para entender o presente e projetar o futuro, é só na aparência que os números do setor externo em janeiro não indicam uma tendência preocupante.

Que tal uma viagem no tempo para ajudar a entender o ponto? Estamos em 1998, mais precisamente no começo do segundo semestre. Vai eclodir a crise russa, com uma estrepitosa moratória de sua dívida e um quase instantâneo aperto de liquidez no mercado financeiro internacional. Será a terceira crise de liquidez em quatro anos.

No Brasil, a banda cambial vigente havia sido alargada em janeiro, passando a variar entre R$ 1,12 e R$ 1,22 por dólar. Por conta de um câmbio excessivamente valorizado, o déficit em transações correntes caminhará para um recorde de US$ 33,4 bilhões, no fim do ano.

Com a colaboração de taxas de juros nas alturas de 30% anuais, a inflação está no chão e pouco passará de 1,5% quando acabar o ano. A economia estagnou, vai acabar crescendo décimos de percentagem, mas o dinheiro externo jorra. Investimentos estrangeiros diretos, engordados pela privatização das teles em julho, vão bater em US$ 25 bilhões no fim do ano. Nem a economia estagnada nem as nuvens que se formavam no setor externo impediriam a reeleição, com folga, em primeiro turno, do presidente Fernando Henrique.

As reservas cambiais, apesar da sangria das contas correntes, alcançam antes da crise russa, robustos US$ 60 bilhões. No fim do ano, ainda aparecerá o FMI com mais US$ 44 bilhões. Não é pouco para enfrentar uma dívida externa de US$ 235 bilhões, 60% dos quais de responsabilidade privada. Mas, a partir de agosto – e, de modo franco, depois das eleições de outubro – um terremoto vai sacudir a economia.

Faz dez anos, nem tanto tempo assim. Parece que muitos, já bem vivos naquele período, não se lembram – ou, mais provavelmente, não querem se lembrar. Em menos de seis meses, as reservas evaporaram diante de um vendaval especulativo, que forçou a mudança do regime cambial e, em seguida, abriu espaço para a formalização de um sistema de metas de inflação.

Voltemos a 2008. De novo, os riscos de turbulências e de contração da liquidez internacional estão nítidos na linha do horizonte. Mais uma vez, um câmbio excessivamente valorizado revira as entranhas das contas correntes. Como antes teve quem achasse, tem gente hoje que acha bom.

Lá vem a ladainha. Déficit em conta corrente que preocupa tem de ir a 4,5% do PIB. O de 2008, dizem, nem na pior hipótese chegará a 1% do PIB. Dizem também que o déficit é bom porque significa aumento de importações – e estas, além de frear a inflação, ajudam na renovação do parque industrial e no aumento da produtividade. Idem em relação às remessas dos lucros gerados pelos investimentos externos diretos.

Vale dar mais um pulinho em 1998. Enquanto a onça bebia água no setor externo brasileiro, a conversa era exatamente a mesma. Era como dissessem que déficit em conta corrente não passa do apelido pejorativo de virtuosidades: poupança externa, produtividade, lucratividade. Deu no que deu.

Perguntar não ofende: não há alternativa a deixar o dólar escorregar de vez ou continuar comprando reservas em troca de dívida interna pública? Falando em português mais claro: quando chegará a hora de definir algum tipo de barreira não monetária à entrada de capitais externos?

Não se venha escapar do problema com a argumentação vazia de que os tempos são outros, os fundamentos também. Podem até ser na superfície. O drama é que, na essência, o problema é o mesmo: uma política monetária que estimula a entrada descontrolada de capitais externos.

Sob o risco de repetir a história – que, sabemos, quando se repete, é sempre como farsa -, as respostas honestas não podem vir, novamente, só depois do vendaval.

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